19.2.17

Os meus amigos de Edimburgo

Hoje chego tarde ao café do Chico, quase à hora de almoço. Mas o Chico não serve almoços, apenas distribui abraços aos clientes que não aparecem há tempos. O meu vem ao meu encontro logo que cruzo a porta, trazido pelo passo dançarino do dono do café. Sento-me na minha mesa junto à janela, de um lado o azul raiado do branco das nuvens, do outro os tons cremosos do café, cadeiras, mesas e balcão castanhos. O café do Chico combinaria bem em tom com um cappuccino, concluo, enquanto olho em volta à procura do jornal, mas eu apenas tomo café escuro, não diluído. Sou capaz de deitar uma gota de água no uísque como os meus amigos de Edimburgo, mas incapaz de deitar leite no café, como os meus amigos de Edimburgo. Dois dias de Correio, consigo encontrar. Só no café do Chico leio o Correio, os meus outros cafés não prestam tal serviço público. Não me espanta que o mundo seja para mim cada vez mais um lugar de espanto. Faltam-me as ferramentas para o entender. Aquelas que só uma leitura metódica do Correio proporcionam. Por exemplo. Eu, que nada sei da Bárbara e do bárbaro professor, sinto-me um ignaro, um bárbaro também, arrisco dizer. Salva-me destes pensamentos o Augusto, a quem não abraço para não esmagar os óculos que transporta ao peito. Conta-me da vida dele, e depois conta-me da vida da Florinda, sabes? está de amores com aquele que trabalha com ela, tu conheces. Ah, se dizes, devo conhecer. O Augusto não me consegue dizer quem ele é, porque não se recorda o nome, nem eu pela vaga descrição, diluída como o café num cappuccino, lá chego. Quando voltar a encontrar o Augusto, já ele descreverá melhor, quero crer, o desconhecido meu conhecido por quem a Florinda está de amores. Eu tenho a certeza de que o Augusto não notou que a Isabel, que está sentada na mesa ao lado da nossa, tem as unhas das mesma exata e precisa cor (Pantone 5115 UP)  que as botas da Lúcia, que se senta com ela. No meio de ambas, a Laura, filha de Isabel desfila atentamente fotos num ecrã. O Chico também não notou e eu só noto porque ao domingo tenho a minha visão apurada para as coisas do mundo. É do café do Chico, o melhor do mundo conhecido, noto hoje que nenhum me sabe como aquele. Tenho a certeza de que se o diluísse em leite, perdia este poder mágico de tornar o ar transparente. Antes de sair, a mulher do Chico faz-me um embrulho de empadas ainda quentes, porque hoje é domingo. Divido palavras e abraços com os presentes e saio para o luz azul da tarde, a pensar no leite que obscurece o café e na gota de água no uísque que abre os sabores como se fossem uma corola ao sol. E reparo que estou em falta: os meus amigos de Edimburgo já me deram a provar o melhor uísque do mundo e eu ainda não lhes dei a conhecer o melhor café do mundo. De caminho, sempre lhes diria que o café, ao contrário do uísque, atinge a perfeição em estado puro.