24.2.17

Pré-história de uma viagem espadaúda

Recebo uma carta, escrita a tinta azul-cobalto, pela mão treinada nos clubes de caligrafia de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada.

Meu muito estimado amigo,

O que um homem faz em vida ecoa na eternidade, disse um imperador de tempos idos. É mentira. O que um homem faz em vida morre com ele. E se não fizer, pior ainda: não só não fez, como morreu. Triste, como diria um imperador dos tempos que vão.

Fontes que não denunciarei, mas que sussurram aqui ao meu lado «pauvre, oh, pauvre J.» informam-me que o meu estimado amigo se converteu do café para o chá. Era tempo. A ver se deixa de falar de serviçais de balcão e escreve sobre temas que interessem a homens: tabaco, «football», bebidas brancas. E outros, que não escreverei aqui, porque alguém espreita por cima do meu espadaúdo ombro.

Adiante. Além de se converter ao chá, dizem-me, enfia-se horas e desoras a fio lá nesses locais tenebrosos onde erode os seus melhores anos, empalidece ainda mais profundamente essa face encovada, mirram-se-lhe as carnes à míngua de nutrientes, perde a arte de falar e o tino, um desatino.

Eis que surgem as trombetas de Jericó, «nay», da salvação. Eu e a dulcíssima Orchidée partimos amanhã para a Provence, em viagem longa e lenta e gastronómica, conduzidos pelo prestimoso Reboredo. O Phantom, como sabe, tem lugar para quatro e Orchidée detesta fazer estas viagens sozinha no banco traseiro. Precisa desesperadamente de alguém com quem coscuvilhar, clac, clac, clac e partilhar gritinhos de cada vez que um pôr-do-sol radioso se atravessa no meio da estrada.

Faça a mala, leve aquele seu Vilebrequin de tons róseos que decerto combinará bem, à beira da piscina, com umas miniaturas que Orchidée está agora a colocar na sua «petite valise». Combinará, digo eu, enquanto coscuvilham e dão risinhos e tiram autorretratos que mais parecem os de propaganda a pastas dentífricas.

Reboredo estará aí à sua porta às sete da manhã, em ponto. Não se atrase: a paciência do bom Reboredo, polida em King Saul Boulevard, é lendária mas não infinita.

A ver se liberta o «pauvre J.» que há em si, homem!

Deste que muito o aprecia e considera, e da estrela radiosa ali assentando todo o seu peso de orquídea em cima da «petite valise»,

J. Eustáquio de Andrada.