26.3.17

Como ser prior nesta freguesia?

Bessa-Luís excita-se facilmente com o que julga subtileza, cultiva a «espontaneidade». O resultado é esta imediata aparência de pretensiosismo irritante, de gratuitidade, de falsificação (como se diz de um quadro que é um «falso»). Irritante ainda — e a propósito — é a autodidáctica exibição de «cultura» com referência a autores, a pintores, etc. Cá temos neste livro um Frei Luis de León, a rainha de Navarra e não sei quem mais. Ora a cultura não se exibe: manifesta-se por si como a civilidade. É um modo de se ser, não de se estar. Irritante ainda é o tom sentencioso de quem detém o segredo das grandes verdades da vida e as lança de alto com autoridade. Em todo o caso, é prudente admitir que a gratuitidade ou falsificação sejam só aparência. Porque de vez em quando a observação acerta, a verdade ilumina-se flagrantemente. É, aliás, arriscado julgarmos charlatanice aquilo a que não aderimos — ou porque o não entendemos. Schopenhauer, que diabo, julgou Hegel um vigarista e Hegel é o pensador mais presente em todo o século XX. Aceitemos pois que o defeito, estando nela, está também em nós.

[Vergílio Ferreira sobre Agustina Bessa-Luís, em Conta Corrente I]

Eu nunca tinha lido Jorge Luis Borges. É à primeira vista, qualquer coisa como um pedante humilde; faz da filosofia um catecismo para disciplinar a literatura. E resultou nessa espécie de provinciano que se pode simbolizar pela Melancolia de Dürer, algo de anjo atlético e de cozinheira que espera que o leite ferva.
Não se sabe se o rodeia uma bateria de cozinha mal disfarçada de bricabraque. Jorge Luis Borges, candidato ao Prémio Nobel em sucessivas tentativas que dedica, decerto, ao seu antepassado Lafinur (1797-1824), como parte da sua antologia pessoal, é terrivelmente um homem de recursos. A sua bagagem intelectual chega para soterrar o seu talento. Faz citações que me curam definitivamente das minhas. As citações são as erupções cutâneas da arte narrativa, um indício da natureza púbere e defensiva. Luis Borges chega à atroz necessidade de citar Daniel von Czepko: Sexcenta Monodisticha Sapientium, III, II (1665). Depois faz maus versos. Pudera! Que diferença entre a inteligência convulsa, monstruosa de Poe, e esta banalidade aristocratizada de sabedoria de Borges! Eu não sei se ele sabe muito, ou se, pelo facto de não querer omitir nada, nos deixa impressionados e banidos da cripta do seu Aleph intelectual.

[Agustina Bessa-Luís sobre Jorge Luis Borges, em Ensaios e Artigos I]