3.3.17

Escrever à chuva

Sou o único cliente na esplanada nesta manhã chuvosa. Aqui à frente o café arrefece enquanto as letras saltitam no ecrã. É um café e um pão de deus, Dona Yara, pedia eu há pouco. E Dona Yara, de serviço ao balcão da máquina desesperou porque o braço é curto e o pão divino está noutro balcão. É só um minuto, disse ela naquela voz lá dela com toque de aflição que atravessou o equador. Eu espero, Dona Yara, afinal ir lá para fora com este tempo, e não concluí, que o cantar da chuva é mais eloquente do que qualquer discurso sobre ela. Doutor, minha colega Aureliana dá-lhe já o pão de deus, Aureliana é eficiente. Não se preocupe, Dona Yara, não há pressa, digo eu equilibrando o café, a gabardine e o chapéu de chuva à porta periclitante. E sou salvo pela eficiência certificada de Dona Aureliana e sento-me num lugar a salvo da chuva e surge-me esta vontade de escrever à leitora para dar conta destas minudências inconsequentes. Ao lado, a chuva canta, tentando suprir a ausência do canoro do beiral, acolhido por certo em parte incerta. Distraio-me a escrever e tomo o café no instante exato antes de ser considerado oficialmente frio. Não posso contar do café gelado a Dona Yara nem a Dona Aureliana, senão sou expulso sem remissão. Digo apenas à leitora e fica só entre os dois, combinado?

[O céu parece querer cair agora aqui em cima. Vale-me o chapéu de sol em dia de chuva, que a alma benfazeja de Dona Aureliana abriu. A arca de Noé pode ser uma esplanada, concluo.]