2.3.17

O pássaro das ausências

Já passa largamente das nove, e do pássaro do beiral nem pio. Aproveitou a minha ausência para se ausentar, o ladino. Mal sabe ele que o levei na alma, e que lhe trouxe poemas que posso dizer baixinho ao amanhecer, a troco de trinados, e que lhe trouxe lendas milenares que posso contar, a troco de cantorias. Ausente ele, o que faço a estes tesouros que guardei no alforge de almocreve? Aposto que amanhã me aparece às seis da manhã, a trinar como se não houvesse depois de amanhã. E aposto comigo que perco esta aposta. Procura-se pássaro de beiral. Alvíssaras a quem trouxer notícias. Poemas, lendas, apostas perdidas. Até um coração.