22.3.17

Onda de indignação

O padrão é conhecido. Alguém, alguma figura das ditas públicas, diz ou escreve uma frase que, no contexto ou fora dele, adquire propriedades comburentes. O incêndio subsequente, a onda de indignação, autoalimenta-se nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais, nas notícias televisivas, no parlamento se a tanto chegar. Na verdade, as gentes carecem de motivos de indignção. Os homens precisam de heróis, dizia Carlyle. Não, os homens precisam é motivos para se indignarem, melhor, de pretextos para expressarem a sua indignação. Motivos para indignação não faltam, a quem estiver atento ao mundo. Mas expressar a indignação é mais complexo. Convém que seja uma indignação consensual, para não ameaçar a paz social geograficamente mais próxima. As gentes não querem ser percebidas como descontroladas. Se houver alguém que se coloque a jeito para ser bombo de festa, e se esse bombo for atingível por vários ângulos e quadrantes, ah, isso é uma sorte, uma benção. A dose regular de indignação é alcançada sem danos colaterais. Porque é tão fácil indignarmo-nos por escrito, num texto de cinco linhas e outros tantos pontos de exclamação, mais fácil ainda fazer replicação, gosto, partilha. Desmond Morris escreveu sobre os hábitos tribais dos adeptos do futebol. Sim, o futebol é um magnífico pretexto para a indignação coletiva, com rituais sedimentados para uma indignação profícua e catártica. Mas e para aqueles de nós a quem o futebol não permite suprir esta necessidade primordial? Ou permitindo, fá-lo apenas a espaços semanais, em doses demasiado pequenas para tão grande necessidade? Não há que temer. Haverá sempre um escritor, um político, um artista de qualquer das múltiplas artes de palco ou tela, que se prestará a ser tritinitolueno agitável. Consumada a explosão, o explodido continuará na sua vidinha, sendo o episódio recordado apenas esporadicamente, com intervalos temporais cada vez mais espaçados. Até pode proferir nova atoarda, que a primeira funcionou como vacina. Não mais despoletará indignação, apenas um encolher de ombros. A sede de indignação não se sacia com repetições. Nenhum ritual tribal sacrifica a mesma rês duas vezes. A onda de indignação anseia por deflagrante novo. Mas não tardará. A esta mesma hora, alguém, algures, estará a abrir a boca ou carregar nas teclas para debitar uma frase fatal. Amanhã, recomeça tudo, com uma onda de indignação novíssima. Necessária e merecida.