16.3.17

Retrato de uma mesa enquanto jovem

Então é assim. Escolhi a maior das mesas da esplanada e em cima dela descansa uma chávena de café em meio arrefecimento. Tenho um livro já muito manuseado, o único que sublinho e que até tem, oh!, papelinhos amarelos e amarelados a espigar das páginas. Tenho uma pilha de papéis brancos e ex-brancos, num dossier à moda antiga. E tenho um ecrã alvo à minha frente, onde estas letras que escrevo à leitora vão saltitando como, sei lá, as notas do concerto que ouvia há pouco, enquanto semaforava até à esplanada. Ali ao lado, Dona Aureliana rodopia como uma abelha que encontrei hoje ao amanhecer, em plena laboração em torno de uma flor amarela, brilhante. E divido-me entre a vontade de ficar aqui a escrever à leitora e a de voltar ao dossier cheio de anotações e decisões. Indeciso, fico-me por aqui. Pelo menos uma decisão: acabar o café, enquanto está ainda um bocadinho de quente. Não vá Dona Aureliana passar por perto, inspecionando chávenas. E tomar a decisão de me expulsar da esplanada, por crime de toma de café frio. Mais do que crime, pecado, tenho a certeza. O pecado original aqui deste Éden.