28.4.17

As peças do percurso

Hoje, todas as peças que encontrei no percurso do dia encaixaram.

Apenas um espaço ficou por preencher.

Pertence-te.

27.4.17

um papagaio de papel, com asterisco

notamos bem quando nos apaixonamos:

é quando saímos de perto, mas a alma permanece
junto dela*
a pairar

a paixão faz da alma um papagaio de papel

*ela: leia-se aquela que nos toma a alma de empréstimo

Agustina D'Água

A mudança da obra de Agustina para a Relógio D'Água é, até agora, a segunda melhor notícia do pequenino mundo editorial português neste ano de dois mil e dezassete.

[Esperando sempre o melhor das gentes, há muito suspeitava que Álvaro Sobrinho e Paulo Teixeira Pinto não teriam no topo das respetivas prioridades bem cuidar das palavras de Maria Agustina.]

De sol a sol, e ainda com sol pelo meio

Cheira a pão fresco no café. Cheira a pão fresco, digo eu a Dona Aureliana quando ela me entrega a chávena fumegante, como imagino o pão a sair do forno. Fui eu que fiz, diz a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Pois claro, Dona Aureliana, quem mais poderia fazer pão tão cheiroso? Senão que estaria eu aqui a fazer? responde a Dona, abrindo o sorriso alvo. E corre a atender os restantes dez clientes que aguardam enquanto o meu café teve entrega, digamos, expressa. Pois que mais estaria a Dona ali a fazer, de facto, de sol a sol, e ainda com sol pelo meio?

26.4.17

relatividade generalizada

a resposta é que em torno dos apaixonados
o espaço curva-se num abraço concêntrico
não há luz mais veloz que a dos olhares
a radiação envolve-os num traje cintilante

o tempo, ah o tempo: enovela-se no abraço
e perde-se, volteia, expande-se, excêntrico

Nem Deus o encontraria num alfarrabista

Debalde procurei o livro durante dias: num momento estava presente, no outro, ausente. Hoje, apareceu exatamente no lugar onde deveria estar. Podia ter surgido numa das várias estantes onde o procurei, nos depósitos recônditos que vasculhei, e até em locais de que não me recordei. Mas não. Exatamente onde devia estar. Tenho duas hipóteses: a primeira, é que foi a mão de Deus que o colocou no local de novo [é um livro de poesia, tão esgotado que nem Deus o encontraria num alfarrabista, tê-lo-á tomado emprestado presumo]; a segunda, é que Dona Aline, que toma conta dos aspetos terrenos da minha existência tê-lo-á achado [mas onde?], e o colocou exatamente no local onde eu aguardava por ele. Talvez inspirada por Deus, quem sabe. Claro que não irei esclarecer o mistério: afinal, trata-se de um livro de poesia. O reaparecimento pode ser só mais um poema. Um poema de uma página até agora oculta. E provavelmente, a partir de agora, oculta de novo.

[Adenda: a ser o divino que o tomou de empréstimo, já agora há um segundo livro em falta, tão escasso como este. Se aparecer amanhã, no mesmo local, ninguém mais precisa de saber, não farei perguntas adicionais. Grato.]

25.4.17

Contentes do mundo descontentes

Amam-me o caminho, a casa
e na casa uma jarra vermelha
amada pela água,

Amam-me o vizinho
o campo, a debulha, o fogo,

Amam-me braços que trabalham
contentes do mundo descontentes
e os arranhões acumulados no peito
exaurido do meu irmão atrás
das espigas, da estação, como rubis
mais rubros que o sangue.

Nasci e nasceu comigo o deus do amor
— que fará o amor quando eu me for?

[Versão de um poema de Adunis, nome por que é conhecido no ocidente o poeta sírio Ali Ahmad Said Esber.]

O dia de hoje, ou a via terrestre

Era na mesa ao lado no café [onde mais?]. O pai, debruçado, segurava-lhe no braço, para as palavras seguirem também por via terrestre, para além da via aérea. Foi há muito tempo, ainda nem o pai era nascido, só a avó e o avô, dizia-lhe. E ele olhava para aquele pai tão novo que lhe contava aquela história de tempos que ele nunca poderia imaginar. Faz hoje quarenta e três anos, acrescentou o pai, antes de se alongar na história. E a mãe, ao lado, segurava no braço do pai, para os sentimentos seguirem por via terrestre, para além da via aérea.

24.4.17

A natureza dos sonhos


Max Richter, Dream 13

Ulrica, ou a suavidade

Uma linha de William Blake fala de raparigas de suave prata ou furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade, afirma Borges. O ouro é inútil, digo eu. Bastaria a Ulrica ser suave como a brisa, o tempo, ou o Universo.

[As palavras de Blake são, no original: «girls of mild silver, or of furious gold».]

23.4.17

cartografia empírica

é no teu mapa de mim
que me descubro

Uma criação contínua

O corpo humano não é uma coisa ou uma substância dada, mas uma criação contínua... O corpo humano é um sistema energético num estado de perpétua destruição e construção de si...

[Norman O. Brown em Love's Body, citado por António Ramos Rosa n'A construção do corpo.]

Cada livro é uma peregrinação

Não é coisa usual eu incluir prefácio nos meus livros. Entendo que eles se recomendam como os peregrinos de Santiago, pelas conchas que têm no chapéu e que simbolizam a viagem no sentido supremo, de descoberta, testemunho e redenção. Cada livro é uma peregrinação; não precisa de passaporte e aviso que o distinga e lhe assegure hospitalidade.

[A propósito do Dia do Livro. Agustina Bessa-Luís, no prefácio de Fanny Owen.]

Suspensórios

Na mesa ao lado daquela onde repousava o meu café tardio, todos eram tão bonitos, tão imaculadamente vestidos, que eu esperava a qualquer instante ver surgir o fotógrafo para documentar um brunch de bloggers.

Ele passeava com a mala preta da mãe, com a alça a ameaçar o equilíbrio ainda precário mas decidido, os olhos brilhantes na cara de resistente [não ligou ao meu sorriso, nem tentou sequer esboçar um de volta]. Com tal orgulho fero, seguro nos seus suspensórios, tenho a certeza de que deitaria a língua de fora ao fotógrafo, caso este tivesse a pobre ideia de sobre ele assestar a lente.

22.4.17

Contra o lamento como forma de vida

Cheguei a este texto de António Guerreiro no Público pelo Ouriquense. Respeitando habitualmente o que António Guerreiro escreve, neste caso creio que o seu rigor tem margem para melhoria: afinal, dizer que Agustina deixou de publicar, numa altura em que três mil páginas escritas por ela aparecem em livro há menos de três meses, merecia outro cuidado na expressão do lamento implícito. É que, adicionalmente, não é apenas mais uma obra de Agustina: está entre o melhor que alguma vez foi publicado de Agustina.

Três mil páginas são mais do que as obras coligidas da maioria dos escritores nacionais do século XX. Na verdade, Ensaios e Artigos são uma fonte de prazeres dificilmente esgotáveis para quem se delicia com o pensamento de Agustina e ao mesmo tempo se exaspera com a trama das suas histórias. O pensamento guarda o seu estado pristino, as histórias não chegam a ter tempo para se perderem nos labirintos da autora, quando avança por elas sem o fio de Ariadne.

É próprio de ser português abafar a realidade debaixo de um manto de lamentos. Mas mesmo sendo portugueses, ninguém lamenta que os cinemas não passem Aniki Bobo. Está disponível em formato digital. Ninguém lamenta que as lojas de discos (quais são as que restam?) já não tenham as Sonatas para Cravo, de Carlos Seixas. Estão disponíveis em formato digital.

Em vez de nos lamentarmos apenas pelo que deixou de haver, congratulemo-nos com o que há. E se há, na verdade, menos livros de Agustina nas estantes das livrarias, o Centro Virtual Camões disponibiliza há bastante tempo quatro livros fundamentais da autora, inteiramente grátis, em formato digital, entre as quais A Sibila. Se quem quer conhecer a obra de Agustina começar por estes e a seguir se abalançar aos Ensaios e Artigos, tem palavras de Agustina para bons e profícuos meses. Esgotar a leitura de mais de quatro mil páginas de obras de Agustina Bessa-Luís é, em si mesmo, obra de mérito.

Aprender a invisibilidade

Uma das aspirações de Macedonio era converter-se em inédito. Apagar as suas pegadas, ser lido como se lê um desconhecido, sem aviso prévio. Várias vezes insinuou que estava a escrever um livro de que ninguém conheceria alguma vez uma página. Em testamento, decidiu que o livro permaneceria secreto até 1980. Ninguém deveria saber que o livro era seu. Inicialmente, pensou que o livro seria publicado anonimamente. Depois, pensou que devia publicar-se com o nome de um escritor conhecido. Atribuir o livro a outro: um plágio ao contrário. Ser lido como se fosse esse escritor. Por fim, decidiu usar um pseudónimo para que ninguém o pudesse identificar. O livro devia publicar-se secretamente. Gostava da ideia de trabalhar num livro pensado para passar inadvertidamente. Um livro perdido no mar dos livros futuros. A obra prima voluntariamente desconhecida. Cifrada e escondida no futuro, como uma adivinha lançada à história.
A verdadeira legibilidade é sempre póstuma.

[Versão de um texto de Ricardo Piglia sobre Macedonio Fernández.]

21.4.17

o frágil obverso das palavras

abro as palavras
com ambas as mãos

extraio-lhes a essência

para ti só palavras
em estado nativo

A magia matinal

Dona Aureliana acaba de me salvar o dia, antes mesmo de me sentar aqui na esplanada, saiba a leitora. É o café mais forte que tiver Dona Aureliana, que hoje o dia é longo. Eu sou o primeiro cliente da manhã, as máquinas de Dona Aureliana ainda fumegam um nevoeiro com aromas daqueles que atravessaram o equador, como a fala da Dona. Aqui está doutor, muito bem tirado este. A modéstia de Dona Aureliana é lendária, mas a verdade é que tem toda a razão, muito bem tirado este. E eu escrevo estas linhas à leitora, sozinho na esplanada: A esplanada é toda para si, doutor, dizia a Dona há meio café atrás. O outro meio está aqui à minha frente, a olhar para mim, e para a leitora, naturalmente.

*

E entretanto saio para o mundo. Despeço-me: Bom dia, Dona Aurliana. Tenha um bom dia, doutor. Dona Aureliana está a cantar para a máquina do café canções da terra lá dela, aquela abaixo do equador. E não admira que o café saia assim. Sente-se em casa, só pode ser, sente-se em casa.

20.4.17

Música de câmara


Ballake Sissoko & Vincent Segal, Chamber Music

E quem observa o observador?

Sempre quis viver no interior de um quadro, ser um objeto a contemplar. Mas às vezes quero viver no olho que observa esse quadro onde estou.

[Dos Diarios, Nueva edición de Ana Becciu de Alejandra Pizarnik.]

Livre arbítrio

O livre arbítrio é a prerrogativa de não reagirmos de imediato a um estímulo. Opinar sem ponderar, sem ultrapassar o fosso causa-efeito, é o inverso do livre arbítrio. Talvez valha a pena perguntar a quem abdica do que nos torna humanos: Porque é que opta por não ser livre?

[A propósito dos que opinam em cima da dor de outros. A opinião, como a bala, não volta para a câmara, após ser disparada.]

19.4.17

Outras veredas


Yasamin Shahhosseini, Gahan

e um poeta, leitora?

as rosas não têm boca
é com o aroma que te cativam o olfato
a lua não tem boca
é com a luz que te cativa a visão
e um poeta, leitora, como te cativará?

[versão de um poema de Oguma Hideo]

Um green que era só nosso

Não sei se foi com ele que aprendi o humor que existe no silêncio inesperado, introduzido com a exatidão de uma linha de compasso. Mas sei que foram muitas as partidas, muitos os anos, em que praticámos esse jogo curto, num green que era só nosso, quero crer. Um dia, voltaremos a jogá-lo. Ainda não, ainda não, mas retomaremos o jogo interrompido como se nunca o tivesse sido, quero crer também.

Sonhar é trabalho intenso

Gostaria de fingir que o sonho é uma forma de descanso, de acreditar que é tomar alento para um novo dia: a continuação do anterior. Não é assim, contudo. Sonhar é trabalho intenso: o de reconstruir quanto possível o que nos empenhamos a desconstruir durante a vigília.

[Com uma vénia a Chantal Maillard.]

Longa passagem para a noite


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté, Debe

18.4.17

As derradeiras gotas de luz

Saindo tarde, hoje, a bem dizer noite, ainda retorci o céu para lhe apanhar as derradeiras gotas de luz. Ao pingarem assim, deixaram tatuadas a tinta de sombra as folhas das árvores que recortei para ti.

um verbo

olhar é um verbo

olhares-me é uma luz

17.4.17

ciência da luz

é a luz que busca o olhar

para se poder refletir

Menino da mamã

Luis XIV, filho tardio de Ana de Áustria e de Luis XIII, nascido após vinte e dois anos de casamento dos pais sem geração de descendentes, passou, segundo a opinião do camareiro Pierre de La Porte, mais tempo com a mãe do que qualquer outra criança da mesma classe. Tanto tempo estavam juntos que o jovem Luis, ao contrário do que era habitual na época, acompanhava a mãe em todas as refeições. Prodigiosas refeições. Dela herdou o gosto pelos pratos suculentos: salsichas, costeletas, olla podrida (uma feijoada da Espanha natal da mãe) e o abundante chocolate. A seu tempo, o apetite de Luis XIV espantaria aqueles que assistiram às suas refeições. Nicolas de Bonnefons, camareiro, escreveria que o jantar do rei consistia em vinte pratos, e que o centro da mesa tinha que ser deixado livre, uma vez que o perímetro abdominal de Luis não permitia que o alcançasse. Cerca de quinhentas pessoas eram necessárias para preparar e servir cada refeição real. Após a autópsia, os médicos descobriram, talvez sem grande surpresa, que o estômago de sua majestade era à medida de tudo na sua vida: três vezes maior que o normal. Ainda assim, Luis, que comia em pratos de ouro, recusava-se a usar o garfo. Tamanha abundância só podia ser degustada à mão. No fim, os criados estendiam-lhe um pano, após o que a governação podia continuar, de mãos limpas.

16.4.17

#Páscoa

Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que ele é o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus: «Maria!» Ela, voltando-se diz-lhe em hebraico «Rabbount!» (o que quer dizer Mestre).(*)
Diz Tom Holland: «Não conheço outra passagem mais poderosa e contudo mais terna e comovente no corpus da literatura antiga do que João 20.15-16.»

[*Tradução de Frederico Lourenço.]

15.4.17

onde nascem as flores

deito-me na terra — sabes
para colher para ti
as flores que nascem no céu

Adoram as pombas como deusas

Conta Ctesias, na sua História da Pérsia, que Semiraminis, abandonada em bebé no deserto, sobreviveu porque foi adotada por um bando de pombas. Eram as pombas que a protegiam, com as suas asas, do frio e do calor e que traziam no bico gotas de leite que roubavam aos pastores, sempre que estes desviavam o olhar. Quando Semiraminis começou a precisar de comida sólida, por volta de um ano de idade, as pombas debicavam queijo e traziam-no. Assim, Semiraminis, que viria a ser a mulher mais bela e mais poderosa do seu tempo se criou, até que os pastores, intrigados com as bicadas no queijo, procuraram a resposta no deserto, a encontraram e levaram. Foram eles que lhe deram o nome de Semiraminis, que deriva da palavra pomba em sírio. Desde então, os sírios adoram as pombas como deusas.

Gente fantástica

Dizia o saco da rapariga ao balcão do café quando eu vinha a sair: «Reading is for awesome people». No meu café, vejo-os a ler. Muitas vezes os mesmos, os mesmos livros. Noto-lhes as emoções a fluir nos filamentos que ligam o olhar às páginas abertas. De vez em quando, surge-lhes um sol na face, mais brilhante do que o que funde os vidros da janela. Gente fantástica, os leitores.

14.4.17

volantes

todos os dias as palavras volteiam junto a mim
e eu tento — tento
apanhá-las aqui

mas, ai de mim, em vão
rebelam-se, são tuas
voam para ti

Uma parede de tijolos à mostra

De onde me sentava via-lhe a curvatura das costas, um arco de um quarto de circunferência, causado pelo peso da solidão na cabeça. Jantava com a lentidão dos que desistiram. O olhar triste e vago contrastava com o castelhano borbulhante do par que se sentava entre a minha mesa e a dele. Vi-o ontem, mas a imagem permanece, talvez porque antes me tinha fixado nos olhos tristes de um homem de barba nobre, com idade para ser meu pai. Dois olhares assim, quase de seguida, não se esquecem facilmente. Mas ocorreu-me agora: o homem solitário não tinha telefone nas mãos, sequer sobre a mesa. Não se escondia num ecrã. A sua solidão era assumida, autêntica, sem reboco. Tinha a alma à mostra, como os tijolos a descoberto na parede.

13.4.17

pistas

não sei como o fazes
sei que encontro pistas de ti
por todos os lugares onde vou

não, não sei como o fazes
não sei se tu deixas as pistas
ou se eu as deixo por ti

Folhas de erva

A senhora de vestido preto e sapatos rasos de fivela aguardava, lendo com óculos atentos, a espessa versão portuguesa de Leaves of grass.

12.4.17

Florescer


Abril florescia
frente à minha janela.

[Antonio Machado]

O Ò Que Som Tem?

Escrevendo para a The Paris Review, Anthony Madrid responde à questão que ele próprio coloca: a que soa Rumi na sua língua original? Pois soa a Antonio Machado, assim, com métrica e rima e ritmo e música [e que aqui se mantém no original]:

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una fontana fuía
dentro de mi corazón.
Di, ¿por qué acequia escondida,
agua, vienes hasta mí,
manantial de nueva vida
en donde nunca bebí?
(...)

Que bela ideia esta: se a poesia se queda sem música na tradução, que quem traduz nos diga que som tem. Uma pauta, umas notas ao menos, para a podermos interpretar. E se quem traduzir Machado disser que soa a António Nobre?

—Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
(...)

Em Nobre se ouve Machado e neste, Rumi. É de música a linhagem da poesia. Poucos dizem de um poema: ò que som tem. Mas talvez seja mesmo por aí que deve ser redescoberta a poesia [não apenas a traduzida]. Pelas pautas perdidas.

[O título inclui uma brevíssima homenagem ao trabalho de Rui Júnior.]

Antes que esfriasse de vez

O café que eu pedi cheio, vem com uma altura de dedo e meio. Um café forte não tem que ser minguado, e eu quero o melhor dos dois mundos, mais cafeína e mais bebida fumegante, que aguente quente o tempo pelo menos de eu começar a escrever esta missiva à leitora. Mas o jovem do outro lado do balcão não é Dona Aureliana, menos ainda o Chico. Não usa a mesma escala de medição da chávena que eu. O café era cheio, digo eu, com reticências vagamente desapontadas na voz. Eu vou encher, devolve-me o jovem do outro lado do balcão, desconhecedor não só da termodinâmica do café como da minha própria termodinâmica. Quando o tema é café, fervo em pouca água, saiba a leitora. Como, encher? Depois de tirado? Encher com quê? Café tirado é sagrado, lá diz o ditado, e se não diz, devia dizer. Escrevi a primeira frase desta missiva à leitora, bebi o café de um trago antes que esfriasse de vez. Quando inventarem a minha esplanada em forma portátil, leitora, não saio de lá. É certinho.

11.4.17

Olhar o sol de frente

Uma das fotografias que tirei hoje ao céu azul, apanhou o sol em pleno flagrante no ato de brilhar. A foto eterniza o que eu apenas consegui fazer por breves instantes: olhar o sol de frente. E como é magnífico o sol quando é captado, distraído, no seu lado mais fotogénico.

10.4.17

E o tempo que fez hoje?

Afirma Luciano Curatio que no paraíso a primavera era eterna: as estações e os extremos geográficos do clima só começaram depois da queda. Não diz Luciano, mas subentende-se, que será por isso que por vezes vislumbramos o paraíso em dias como o de hoje.

9.4.17

oásis

encontrei o lugar
as sombras as mesas
as cadeiras as folhas
as cores as horas
para te olhar

o lugar é teu
ele como eu

Nova formulação da dialética Binómio de Newton/Vénus de Milo [o autor original, que até é parte interessada, que me desculpe]

A geometria de Almada é tão bela quanto o melhor golo de Cristiano. O que há é pouca gente para dar por isso.

[Almada Negreiros, entenda-se.]

8.4.17

heterónimos

sabiam-se heterónimos um do outro
apenas habitavam corpos diferentes

terna é a lua

há a lua para nos recordar: 
quão incompletos estamos

A felicidade secreta

Ao vê-los há pouco ao sol junto ao rio achei-os felizes. Não é isso que me dizem os estudos onde aos portugueses falta a felicidade que aos outros sobra. Não me cabe ajuizar do grau de felicidade individual de cada um dos que por lá andavam. Não realizei nenhum inquérito, não validei nenhum modelo. Estou apenas a assumir que aqueles que vi há pouco ao sol, passeando lentamente depois do almoço de sábado, seriam secretamente felizes, ainda que publicamente infelizes. Ou que seriam felizes que bastasse, que para pior antes assim. Os portugueses são mais felizes do que afirmam, quando lho perguntam, quero crer. Experientes e desconfiados, sabem no entanto que se se afirmarem felizes, mais cedo ou mais tarde, a felicidade será proibida ou, pior, taxada. Assim escudam-se. Deitados ao sol, banhados em azul, ainda com sabor a bom café nos lábios, são infelizes. São absolutamente infelizes, graças a Deus.

Quanto de autêntica viagem

Quanto do que fazemos, fazemos para fazê-lo e quanto para contá-lo? Que parte da nossa vida está vivida e que parte fotografada e empacotada para ser vivida depois, quando puder ser comunicada? Quanto de autêntica viagem há nas nossas vidas e quanto de turismo?

[Baseado em leituras dos Diarios Indios, de Chantal Maillard.]

7.4.17

Um efeito curioso da primavera

Um efeito curioso da primavera nos subúrbios é produzir uma quantidade surpreendente de cantorio masculino e feminino à noite. Sentamo-nos com as janelas abertas, e uma senhora chia notas em aparente êxtase.

[Dos Diários de Virginia Woolf, possivelmente o melhor blog feminino escrito no início de século vinte.]

Árvore — homem

Fragmento de Un dimanche après-midi à l'Île de la Grande Jatte, de Georges Seurat, 1886

Os poetas, donos dos dias

Talvez os dias de chuva pertençam a Karmelo C. Iribarren:

Qué hago
mirando la lluvia,
si no llueve.

Mas hoje o dia pertence a António Ramos Rosa:

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

6.4.17

Flores entrelaçadas


Fragmento de Der Kuss de Gustav Klimt, 1908

referencial cartesiano

é por existires
que a minha vida existe
para lá do plano

O paradoxo de senão

Quando todas as peças se encaixam, é todo o resto do mundo que se desencaixa.

5.4.17

Um método infalível

Método azteca para encontrar uma pedra preciosa:

Saia antes do amanhecer.
Olhe para leste.
À medida que o sol nasce, olhe atentamente; não pisque.
Uma fina coluna de vapor ascenderá: aí estará a pedra.
Se não estiver no chão, se nada for visível, cave.

O meu estatuto especial

O meu outro fornecedor de café, que não é nem a Dona Aureliana nem o Senhor Variações nem o Chico, deu-me a conhecer o meu estatuto: sou oficialmente cliente Expert (com maiúscula). Sou, portanto, Expert em café, diz ele, que não sabe dos cafés tomados nas esplanadas amenas de cada um dos concorrentes. Ora se sou Expert aqui, que serei se somar todos os cafés degustados aquém e além Tejo, aquém e além mar, aquém e além equador? Em que estado estarão as minhas células, as cerebrais e outras, com tamanha expertise em café? Transforma-se o amador na coisa amada, reconhecia o poeta. Ainda não apareceu esta transformação em nenhuma análise, não sei porquê, talvez por distração dos analistas. Mas quando me perguntarem o meu tipo de sangue, a resposta será expressa: é arábica.

O mundo segundo Chang III

Chang Jung, poeta do século V, recebeu um leque de penas de garça branca, feito por um padre taoísta, que lhe disse que coisas estranhas deveriam ser dadas a pessoas estranhas. O Imperador disse que o reino não podia ficar sem um homem como Chang Jung, mas também não podia ficar com dois.

O mundo segundo Chang II

Chang Ch'ang, erudito e governador do século I AC, tinha o hábito de pintar pessoalmente as sobrancelhas da sua esposa. Quando o imperador lhe perguntou porquê, Chang respondeu que as mulheres consideram serem as sobrancelhas da mais elevada importância.

4.4.17

Cuidar do seu — jardim

Fragmento de Poplars, Éragny de Camille Pissarro, 1895

O mundo segundo Chang

Disse Chang Ch'ao, no século XVII: «As flores devem ter borboletas, as montanhas devem ter riachos, as rochas devem ter musgo, o oceano deve ter algas, as árvores velhas devem ter trepadeiras, e as pessoas devem ter obsessões».

Paciência

Aperta-me a mão e agradece-me a paciência. Mais uma vez, acrescenta, com um sorriso delicado. E deixa-me a pensar que eu é que lhe fico a dever um agradecimento pelo agradecimento.

2.4.17

Mergulho — rio

Fragmento de La Grenouillère de Claude Monet, 1869

A liberdade das gaivotas

As asas da gaivota mergulharão e sobre o seu fulcro ela rodará, fazendo cair anéis brancos de tumulto.

Um dia, tu e eu, inventaremos liberdade tão tumultuosa como a das asas da gaivota.

[A linha inicial é de uma versão livre do princípio de The Bridge, de Hart Crane.]

Uma dívida astronómica

Saio já tarde para prestar vassalagem ao sol. Deveria ter ido mais cedo, bem sei, mas perdi-me por aqui em minudências inconsequentes. O café breve não conta neste cômputo, creio eu. No balanço de súbdito solar acabo de ganhar mais uma dívida. Quando o verão chegar, terei que madrugar para conseguir pagar tal encargo acumulado, composto com juros especulativos. E talvez um verão só não chegue para saldar a soma astronómica que devo ao sol.

Talvez, talvez — num barquinho a remos

Fragmento de Notre-Dame-de-la-Garde de Paul Signac, 1905

Não é sobre a minha altura

Não é sobre a minha altura, este texto. Eles passam por mim e noto que as respetivas cabeças ficam ao nível do meu ombro. Se as idades tivessem cabeça estariam abaixo do limiar do meu pulso. Ouço-o a ele dizer para ela: Deixa-me, quero ser livre (e considere-se aqui acrescentado um aguçado ponto de exclamação). Não é sobre a minha altura, este texto, disse acima. Mas creio que quando ele tiver a minha altura, se a vier a ter, dirá o inverso. Pensei nisto, mas não lho disse. A altura não era adequada.

1.4.17

Danças solares


Jean-Baptiste Lully, Chaconne de Phaëton

Vivos! Vivos!

Os Lushei, que vivem na Índia, acreditam que os terramotos são causados por povos que vivem abaixo do solo e agitam a terra para ver se alguém acima está vivo. Quando um terramoto acontece, os Lushei saem das suas casas a gritar: «Vivos! Vivos!» para que os que estão abaixo saibam e parem a agitação.

As raparigas cantam e os pássaros cantam

Os Santals, um povo que vive nas florestas do estado de Bihar, na Índia, têm uma canção com os seguintes versos:
Nas árvores, os pássaros cantam.
Na povoação, as raparigas cantam.
Uma imagem de serena calma, gente e natureza em harmonia. As raparigas cantam e os pássaros cantam. E mais ainda: cantam-se.

Criação e boa criação

A nove de junho de mil seiscentos e três, Samuel de Champlain participou numa cerimónia de vitória nas margens do rio Ottawa. Sentou-se com o Grande Sagamore, Besouat, em frente a uma fileira de espigões encimados com as cabeças dos inimigos derrotados, e observou como as esposas e filhas do Grande Sagamore dançavam diante deles, cobrindo a nudez apenas com colares. Depois da dança, a conversa voltou-se para a teologia. O Grande Sagamore disse a Champlain que há um único deus. Depois de ter criado todas as coisas, Deus colocou algumas flechas na terra e estas transformaram-se em homens e mulheres que povoaram a Terra. Champlain respondeu ao Grande Sagamore que esta era uma superstição pagã e falsa. Há de facto um único deus, mas depois de ter criado todas as coisas, tomou um pedaço de barro e fez um homem, e então tomou uma costela do homem e fez uma mulher. O Grande Sagamore pereceu duvidar, mas, seguindo as regras da boa hospitalidade, permaneceu em silêncio.