17.4.17

Menino da mamã

Luis XIV, filho tardio de Ana de Áustria e de Luis XIII, nascido após vinte e dois anos de casamento dos pais sem geração de descendentes, passou, segundo a opinião do camareiro Pierre de La Porte, mais tempo com a mãe do que qualquer outra criança da mesma classe. Tanto tempo estavam juntos que o jovem Luis, ao contrário do que era habitual na época, acompanhava a mãe em todas as refeições. Prodigiosas refeições. Dela herdou o gosto pelos pratos suculentos: salsichas, costeletas, olla podrida (uma feijoada da Espanha natal da mãe) e o abundante chocolate. A seu tempo, o apetite de Luis XIV espantaria aqueles que assistiram às suas refeições. Nicolas de Bonnefons, camareiro, escreveria que o jantar do rei consistia em vinte pratos, e que o centro da mesa tinha que ser deixado livre, uma vez que o perímetro abdominal de Luis não permitia que o alcançasse. Cerca de quinhentas pessoas eram necessárias para preparar e servir cada refeição real. Após a autópsia, os médicos descobriram, talvez sem grande surpresa, que o estômago de sua majestade era à medida de tudo na sua vida: três vezes maior que o normal. Ainda assim, Luis, que comia em pratos de ouro, recusava-se a usar o garfo. Tamanha abundância só podia ser degustada à mão. No fim, os criados estendiam-lhe um pano, após o que a governação podia continuar, de mãos limpas.