12.4.17

O Ò Que Som Tem?

Escrevendo para a The Paris Review, Anthony Madrid responde à questão que ele próprio coloca: a que soa Rumi na sua língua original? Pois soa a Antonio Machado, assim, com métrica e rima e ritmo e música [e que aqui se mantém no original]:

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una fontana fuía
dentro de mi corazón.
Di, ¿por qué acequia escondida,
agua, vienes hasta mí,
manantial de nueva vida
en donde nunca bebí?
(...)

Que bela ideia esta: se a poesia se queda sem música na tradução, que quem traduz nos diga que som tem. Uma pauta, umas notas ao menos, para a podermos interpretar. E se quem traduzir Machado disser que soa a António Nobre?

—Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
(...)

Em Nobre se ouve Machado e neste, Rumi. É de música a linhagem da poesia. Poucos dizem de um poema: ò que som tem. Mas talvez seja mesmo por aí que deve ser redescoberta a poesia [não apenas a traduzida]. Pelas pautas perdidas.

[O título inclui uma brevíssima homenagem ao trabalho de Rui Júnior.]