14.4.17

Uma parede de tijolos à mostra

De onde me sentava via-lhe a curvatura das costas, um arco de um quarto de circunferência, causado pelo peso da solidão na cabeça. Jantava com a lentidão dos que desistiram. O olhar triste e vago contrastava com o castelhano borbulhante do par que se sentava entre a minha mesa e a dele. Vi-o ontem, mas a imagem permanece, talvez porque antes me tinha fixado nos olhos tristes de um homem de barba nobre, com idade para ser meu pai. Dois olhares assim, quase de seguida, não se esquecem facilmente. Mas ocorreu-me agora: o homem solitário não tinha telefone nas mãos, sequer sobre a mesa. Não se escondia num ecrã. A sua solidão era assumida, autêntica, sem reboco. Tinha a alma à mostra, como os tijolos a descoberto na parede.