27.6.17

Ânsia desusada de crocante

Dona Aureliana assoma-se da cozinha para explicar a Dona Sarita o segredo para a delícia que está no forno ficar crocante. Pelo meio, bondia-me: Bom dia, doutor. Bom dia, Dona Aureliana, bondio-a eu de volta. Sarita, é um café para o doutor, ordena a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Cheio, ecoa Dona Sarita. Cheio sai, e eu saio com ele, periclitante na chávena, para a esplanada. Hoje bebi quente, porque sei que a leitora fica horrorizada pelo desperdício de calor do café, que é como quem diz, pelo desperdício da flor do café. Esta minudência inconsequente é escrita quando um segundo café já ia bem, já combinava com o final da manhã. Mas terá que aguardar pelo início da tarde. A ideia do que quer que seja o crocante que estava no forno, que tinha segredo contado em voz miudinha, não me sai da cabeça contudo, dá-me fome antes do tempo. Ainda me rendo, o café da tarde está a candidatar-se a ser tomado com o sol a pique. Certa vez, Kafka foi visitar o amigo Max Brod, e ao passar despertou o pai deste, que dormitava no sofá. Kafkiano como só ele, sussurrou a Brod sénior: Eu sou só um sonho, pode continuar a dormir. Bem sigo o exemplo, bem digo à vontade de ir almoçar a desoras: É só um sonho, dorme mais um bocadinho. Mas a rebelde continua aqui a insistir numa ânsia desusada de crocante. Orwelianamente, posso fingir que esta fraqueza é uma força. Que almoçar mais cedo me dará vigor redobrado para uma tarde mais produtiva. Mas sou muito fraco a convencer-me a mim próprio do que não quero ser convencido. A bem dizer, é uma força que tenho.