1.6.17

Carta a propósito de um panda bebé

Recebo, por um estafado estafeta, uma carta manuscrita a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada.

«Meu muito estimado amigo,

Escrevo-lhe instado pela dulcíssima Orchidée, aqui ao meu lado desfeita em lágrimas de dó pela sorte de um panda bebé que, diz ela, está prestes a fenecer se o meu amigo não tomar determinada ação ainda hoje. Pelo coração d'oiro desta que ilumina as horas do meu ocaso sou capaz, como decerto sabe, de tudo, até de o instar a tomar alguma ação, coisa a que o meu estimado é, como é do conhecimento geral, avesso.
Passo a explicar a situação. Informa-me a minha soluçante Orchidée («pauvre, pauvre panda») que o meu amigo recebeu um ex-líbris qualquer lá nessa coisa dos hebdomadários das internetes. Como é que é alguém o nomeia para alguma coisa que não seja contar teias de aranha em bibliotecas empoeiradas, é um mistério para mim, mas avancemos. Informam-me ainda que o meu amigo terá que retribuir o ex-líbris a outro escriba desses de hebdomadários, numa espécie de «merry go round». Ora se bem o conheço, o meu amigo ficará a contar as estrelas do céu e a dividir pelo cardinal de livros da sua biblioteca, para ver se encontra o número que representa o significado da vida enquanto o ex-líbris jaz esquecido e arrefece. O problema é o panda («pauvre, pauvre panda») que assim fenecerá totalmente fenecido, como diria o Herberto, que não disse totalmente assim. O problema, meu estimado amigo, serão as lágrimas desta que aqui ao meu lado se esvai em compaixão pelo «amoroso e fofo pandinha». O problema, enfim, é a minha noite.
O meu amigo sabe que eu não sou versado nisto dos hebdomadários das internetes. Fraco aconselhamento posso dar, mas ainda sou homem para ter uma vida bem vivida e uma considerável memória. Há uns anos, na esplanada do Hotel Mont Blanc em Megève, frente a uma garrafa de Château Lafite Rothschild, o meu estimado amigo Lancastre apresentou-me o sobrinho, cavalheiro de refinado espírito, que tinha também um desses hebdomadários nas internetes, mas que ao contrário do pasquim do meu prezado amigo, falava de coisas que interessam aos homens como carros descapotáveis, «football», vinhos do Loire e montanhas suíças, tudo isto com prosa eivada de um espírito, meu amigo, que o seu sonharia ter, fora o seu um hebdomadário em bom, como sói dizer-se agora. Pareceu-me coisa de valor. Por quem é, procure lá o hebdomadário do sobrinho do Lancastre e envie-lhe o ex-líbris. Diga-lhe que vai da minha parte, olhe. Salva-se o «pauvre, pauvre panda» e salva-se a minha noite, e se calhar a sua, porque a radiosa Orchidée já se preparava para enviar uma orquestra de tocadores de alfaias de cozinha para a frente da janela do seu quarto, onde habitualmente pousa aquele seu pássaro.
Veja se faz alguma coisa ainda hoje, nem que seja publicar esta carta. Quem sabe se algum dos seus dois ou três leitores saberá do paradeiro do sobrinho do Lancastre. Aqui ao meu lado soluçam «pauvre, pauvre panda». Aproxima-se a hora de recolher. Aja depressa, por quem é.

Aceite um abraço deste que muito o considera,

J. Eustáquio de Andrada»