21.6.17

Ficam lindas, lindas, lindas

O Senhor Estrelinha tinha o estúdio de fotografia no primeiro andar de uma casa que era de primeito andar. No andar de baixo, o irmão tinha uma retrosaria. À retrosaria nunca fui, mas sempre que precisava de um retrato para o cartão da escola, era o Senhor Estrelinha que me imortalizava por mais um ano. De imortalidade em imortalidade cheguei aqui, nem tudo se perdeu.

Contavam que o Senhor Estrelinha era cruel com as Modelos.
Modelo: Mas oh Senhor Estrelinha, estou tão mal nesta fotografia.
Senhor Estrelinha: Nessa e nas outras todas, senhora. Sou fotógrafo, não faço milagres.
Modelo: Malcriadão. Nunca mais cá ponho os pés.
Senhor Estrelinha: E eu ralado, não venha. 
O Senhor Estrelinha tinha o monopólio dos retratos. A Modelo voltaria, ele sabia que voltaria.
Já eu, ficava sempre bem, modéstia à parte. Mas eram outros os tempos.

Ontem lembrei-me do Senhor Estrelinha. Olhei para o cartaz e lá estava a Candidata em tamanho irreal. Bem apessoada. Sorriso inabalável. Pele forrada a seda. Muito melhor do que quando me cruzei com ela, estava ela em tamanho real, numa superfície de tamanho irreal, onde ambos comprávamos coisas inúteis. O Senhor Estrelinha chegou cedo ao ofício. Os fotógrafos agora são milagreiros. 

A conclusão moral desta minudência impõe-se assim. O monopólio é mau. A concorrência é boa. Não havendo concorrência, as gentes ficam mal nos retratos [exceto eu, mas eram outros os tempos]. Havendo concorrência, ficam lindas, lindas, lindas. Quem sabe se agora, eu...