9.6.17

Habitar os sonhos

Tenho-te encontrado em cada página de cada livro que leio. A tua ubiquidade surpreende-me, intriga-me, fascina-me: como podes ter sido tema para cada escritor dos que habitam ao meu lado, nestas pilhas instáveis, a que sempre volto, escorando, derrocando, em páginas que tendem a desvelar-se novas à minha mão de leitor repetente. Não em cada parágrafo, como bem sabes, combinaste com os autores o teu lugar, por vezes na primeira das linhas, outras no parágrafo do centro, notei que preferes esperar por mim mesmo antes de virar a página. Jogas comigo, corro a página seguinte, numas escondidas entre o olhar e as palavras. Se o confessasse a outros, diriam que eu é que te vou semeando no campo das letras, para que brotes e que eu te encontre em flor quando por lá regressar. Mas ainda acho que foi conluio teu, uma magia das que alteram o tempo, que te fez habitar os sonhos dos que escreveram os tomos que me preenchem as noites em claro. E assim te encontro, dizia, nos meus sonhos, e nos sonhos que outros, antes de mim, sonharam. Não sei como o conseguiste, como viraste o ciclo dos dias, como quebraste tantos impossíveis, como soubeste antes de eu saber, o que eu iria ler, o que iria ver, o que iria sentir. Sei, isso sim, reconheço, posso dizer-te com segurança, com algum orgulho até: Venceste.