30.6.17

Liliana Abreu e eu

Soube da existência de Salvador Sobral já ele estava prestes a ganhar o festival da Eurovisão. Ouvi a canção só depois de anunciada a vitória. Tardiamente o associei à irmã. Reparo agora, pela prosa de gente que prezo, que parece ser novamente alvo da atenção nacional. Sinto-me a viver num universo paralelo. Os jornais que leio não falam de Salvador Sobral, ou então sou eu que não leio as secções que falam dele. Não é caso único. A minha ignorância do mundo assombra-me amiúde. Reconheço mal os nomes das celebridades e menos ainda lhes associo caras. Posso cruzar-me com qualquer jogador de futebol da liga portuguesa que não saberei dizer quem é, nem que alguma alma generosa se disponibilize para ser a bengala na selva da minha ignorância. De vez em quando chegam-me ecos de coisas, como estas, que eu talvez devesse saber e não sei. Depois lembro-me do que disse Mencken: «Uma celebridade é uma pessoa conhecida de muitas pessoas que lhe agrada muito não conhecer.» Eu não conhecia Salvador Sobral, mas a inversa também é verdade, creio. Não reconheço Liliana Abreu e ela não me reconhece a mim. Não sei quem guarda as redes ao Benfica, nem ao Sporting, nem ao Porto. A nenhum clube aliás. Nenhum destes insignes sabe o que quer que seja de quem escreve estas linhas. Imagino-os a bocejar convictamente se soubessem. Mais ainda se me conhecessem. Cultivo esta distância mútua. Para meu bem e, caramba, sobretudo para bem deles.