24.6.17

Marginália

Descobri, ou redescobri, que aquilo de que mais gosto nos grandes escritores são as suas obras menores. Papéis perdidos, textos para as quais não olharam segunda vez, livros impossíveis de achar, folhas salvas in extremis da fogueira. Descobri também que, mais do que dos grandes escritores, gosto dos escritores menores, dos que não são consensuais, dos que, quais salmões, avançam ainda no sentido oposto ao da corrente viçosa. E, claro, dos escritores menores prefiro as obras ínfimas às vistosas, as sumidas face às presentes, as dispersas face às apuradas. Se descubro o rasto de uma obra noutra obra [como uma rosa esquerda que deixou uma marca rubra no trajeto virgem], rejubilo em silêncio. No que é pequeno, procuro a marginália. Apaixonado pelas grandezas do ínfimo, creio ser assim que se chama esta minha maladia.

[A expressão «grandezas do ínfimo» devo-a a Manoel de Barros.]