5.6.17

Milheiros cronológicos

Sentado no meu posto de comando, com uma das estantes a alguns metros dos olhos, e em linha reta, direta, duas mil páginas de livros carinhosamente selecionados na feira do livro de há dois anos, às quais se juntarão, por outras estantes, similares milheiros do ano passado e dos adquiridos no intervalo entre feiras, que é o ano todo. Páginas e páginas de prosas magníficas, poemas eternos, não ficções, ficções, pulsões e paixões. A aguardar a oportunidade de serem lidas. Fosse eu a ler por ordem cronológica de chegada à fila de espera e creio que a vez destes mesmo à minha frente aconteceria daqui a uns setenta anos, mais dezena menos dezena. Um ótimo incentivo para buscar uma vida longa, não se desse o caso de ter a certeza de que este fosso crescente de anos nem que eu chegasse a idade de Matusalém seria ultrapassado. Aquiles e a tartaruga, mas com uma tartaruga mais rápida do que Aquiles, por outras palavras. Posto isto, ajude-me a leitora: porque é que eu teimo em ir à feira do livro todos os anos?