14.6.17

O ar condicionado pode esperar

Vindo de conversar com Dona Yara sobre os calores do dia que se inicia, sento-me na esplanada a escrever uma minudência inconsequente à leitora. A brisa amena convida a espraiar o momento muito para lá do tempo que demora o café a ficar frio. O cliente da mesa em frente bebe um café gigantesco, à maneira anglo-americana e come fatias de fiambre retiradas da embalagem como se desfolhasse um livro precioso. Fiambre às fatias. Na esplanada, apenas os dois e o vento ameno. Ao longe, a fala de Dona Yara com aquela entoação que atravessou o equador. Tal é a calma que os pombos por aqui aterram e ficam, também eles no remanso. O ar condicionado pode esperar, penso eu. Monto escritório à sombra. Mandasse eu nisto do mundo, e deixava esta brisa ligada todo o dia. Feitos à imagem e semelhança de Deus, estou em crer que ele está sentado numa esplanada algures, deitando de vez em quando um olhar distraído para nós, enquanto aspira o aroma do café fresco, quiçá a esfriar mesmo.