20.6.17

O melhor café

Eu cheguei ao café há já longas horas. Antes que a leitora me olhe de olhos demasiado abertos de admiração e alguma reprovação, direi que faz horas também que já lá não estou. Mas quando cheguei, era Dona Aureliana que estava no posto de comando.
Dona Aureliana: Bons olhos o vejam doutor. Vai ser o melhor café para o senhor?
Eu: Dona Aureliana, hoje tem que ser mesmo o melhor de todos os cafés.
Dona Aureliana: Pois aqui a Jânia vai tirar para o senhor o melhor café. Jânia, é o melhor café para o doutor.
Eu: Dona Jânia, é o melhor café bem cheio, se faz esse favor.
Dona Jânia: Silêncio eficientíssimo.
Dona Jânia afadigou-se em torno da máquina fumegante, perante o olhar atento de Dona Aureliana, coordenadora de serviço do café, controladora de qualidade de líquidos cremosos em chávena, dona de uma fala lá dela que atravessou o equador. E sai um café orgulhoso de ser o melhor café. Por todos os deuses que os homens criaram, leitora, há tempos que não bebia tão bom café. Verdade. Primeiro porque estava na temperatura certa. Não arrefeceu enquanto eu escrevia minudências, que essas escrevo agora. E depois, porque estava mesmo bom, qualquer que seja a definição de bom café. Bom café e boa brisa, deixei-me ficar à sombra, despachando missivas importantíssimas para a esquerda e para a direita. Dona Aureliana mandando no mundo lá dela, eu vigiando o mundo cá meu, a leitora aí a franzir o sobrolho, que eu bem imagino. Pois se isto é forma de passar uma manhã, na esplanada, por mais importantes que sejam as missivas enviadas para a esquerda e para a direita? Quando se tornou demasiado escandaloso até para mim estar tão bem, mudei para lugar mais formal. Tão escandaloso, que o meu plano para amanhã é repetir o escândalo todo, sem nada omitir.