6.6.17

Plácida terça

O meu Plácido Domingo de beiral veio cantar Wagner ao alvorecer, atropelando com o seu afã multidões de trinados incautos. Que fulgor, que vigor, que furor por me acordar assim. Plácido é o tenor, que ao canoro falta em placidez o que lhe sobra em audácia. Comigo aprendeu que deitar tarde e cedo erguer, pode não nos dar saúde [que é sempre adquirida em leasing] mas faz crescer. Não o vejo há meses, acredito que agora peça meças com uma águia ou, quiçá, um flamingo. Com ele eu teria muito para aprender: esta arte de desaparecer e reaparecer, retomando o canto na nota em que o deixou, esta arte de barítono tão plena de oitavas que me deixa num oito, e sobretudo, ah, sobretudo, a arte de voar. Eu, que só consigo voar num casaco de fuselagem, que jeito me dava voar assim, em mangas de alva camisa. É que nem hesitava: voava já. Tomava o segundo café e, inclua-se aqui onomatopeia, num ato de fé, inflava asas pelos ares, tomava a escada para o céu. Como um leve zeppelin, diria.