7.6.17

Tão cedo

Chego ao café mais cedo que nunca, mais cedo que Dona Aureliana, mais cedo que Dona Yara, apenas Dona Patroa chegou mais cedo, que isto a responsabilidade de mandar num mundo é coisa de peso, arreda o sono antes que a noite se arrede. Hoje fui eu a acordar o pássaro, creio, que imagino estremunhado a esta hora, enquanto o café arrefece aqui à frente e eu escrevo minudências inconsequentes à leitora.
Entretanto, vejo Dona Yara que acaba de chegar, ainda em traje civil, e já num afã sobre-humano. Posso ter acordado antes da lua se ir, pedido um café ainda o sol esfrega os olhos piscos, mas aquele afã, leitora, ainda aqui não está. Apenas o pensamento se afadiga, que esse é rápido de manhã e gasta-se depressa. Começa a funcionar muito cedo e vai travando, até que estaca, ainda a lua está a uns dez graus no horizonte. Agora que estou nisto, pergunto-me se a lua não tem efeito no pensamento, como tem nas marés. Eu vivo sempre no mundo da lua, diz a canção. Já eu não. Passo a vida a fugir do mundo da lua, leitora. O problema, sabe, o problema é que o mundo da lua me encontra sempre.