31.7.17

A caminho da segunda centúria

Dona Aureliana, acabada de regressar de férias, entrega-me o café por cima do balcão, perfeitamente tirado, cremoso que baste, sem açúcar, como deve ser, colocando ao mesmo tempo outro café do meu lado esquerdo, para a cliente  que ouve a pergunta cantada com aquela fala lá dela que atravessou o equador: vai querer com açúcar, que faz mal? Não fora a cliente consumidora habitual, que eu cá a vejo amiúde, havia de rever a sua vida em câmara lenta, e deixaria o pacote de açúcar nefasto em cima do balcão, em troca do café em estado amargo nativo. Eu, que estou nas boas graças da Dona, graças a Deus, não ouvi tal reparo ainda, preservo a fama, que não o proveito, de fazer só escolhas que me garantirão uma saúde férrea quando me adentrar pela minha segunda centúria. Regressando à esplanada para um almoço ao sol oculto, a Dona sempre me vai avisando que: as azeitonas engordam, doutor. Olho-me de cima a baixo, ainda que sentado e vou adiantando, com o ar mais sério que consigo arregimentar: creio que arranjo margem para comer duas ou três azeitonas, Dona Aureliana, mesmo que sejam dessas assim carnudinhas. Entre a escrita destas duas metades da minudência inconsequente passou uma manhã completa, creio que a leitora, sempre arguta, terá notado. Isto de preservar a fama e o proveito é um trabalho de Sísifo. O que a gente não faz para chegar na linha à segunda centúria. Mas sob o olhar vigilante da Dona, começo a crer que até a terceira centúria está ao meu alcance. É uma esperança que eu cá tenho, leitora.