10.7.17

A cegueira e o ensaio

Escrevia Borges em 1957 num texto pouco conhecido, o seu discurso de aceitação do Prémio Nacional de Literatura: «Estou à procura, neste momento, de um género literário que condiga com o declínio da minha vista. Nalguns números de El Sur e nos dois números de La Biblioteca fiz, ou tentei fazer, alguns ensaios, entre narrativos e poéticos, que intitulei «Prosas» e dos quais um, chamado «Borges y yo», me satisfazem.» A cegueira de Borges é um facto universalmente conhecido. Mas sê-lo-á que ele procurou criar um género literário em que pudesse continuar a escrever —  apesar da cegueira? É um debate antigo, que revisito amiúde: devo abordar uma obra sem conhecer nada sobre o autor ou, pelo contrário, lerei de outra forma, mais rica, se conhecer? Se eu souber que Borges cegou aos 55 anos, como devo comparar O Aleph, de antes da cegueira, com O livro de areia, de após? É relevante, sequer, fazê-lo? A verdade é que quando li O livro de areia, este me pareceu com um estilo mais depurado, menos barroco — usando uma expressão de Borges — que O Aleph. O mesmo autor, sem dúvida, mas com uma escrita mais nuclear, reduzida ao essencial. Enquanto me pergunto, descubro que estou a dar a resposta. É inútil negá-lo: se a obra me fascina, procuro o autor. Mesmo que para isso tenha posteriormente que revisitar a obra. Borges foi premonitório em Pierre Ménard, autor do Quixote. O Quixote de Pierre Ménard, ainda que seja igual ao Quixote de Cervantes palavra a palavra, é outra obra. Poderia resistir a dizer que agora, depois de ler o parágrafo citado acima, aprecio a obra tardia de Borges com olhos diferentes. Mas não resisto. Estava cego para o facto de que é uma obra escrita por um cego. Deliberadamente. Fez-se-me luz.