9.7.17

Acordar transformado noutro

Borges, que nasceu no mesmo ano (1899) de Nabokov nunca leu Lolita. O livro saiu na altura (1955) em que a visão de Borges, que se vinha a degradar progressivamente havia muitos anos, cedeu finalmente o passo à cegueira. «Não li o volume de Nabokov e não penso lê-lo, já que o tamanho do género novelesco não condiz nem com a escuridão nos meus olhos, nem com a brevidade da vida humana», publicou em El Sur, em 1959. É verdade que nas leituras, por essa altura, Borges dependia de terceiros, gente que se oferecia generosamente para ir a casa dele ler. Compreende-se a reticência de abordar Lolita assim. Mas também se entende o reparo face à brevidade da vida humana. «Desvario laborioso e empobrecedor o de compor livros vastos; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos», havia escrito ele no prólogo de Ficciones, em 1944. Afinal, ler Lolita é viver na mente de Humbert Humbert durante trezentas e trinta páginas. Nabokov e Borges, cada um à sua maneira, tinham Kafka no topo do olimpo pessoal. A diferença é que Nabokov queria que o leitor acordasse transformado naquele outro Gregor Samsa que é Humbert Humbert. Borges, pelo contrário, que acreditava que cada homem tem em si todos os outros homens, discordava da necessidade dessa metamorfose — que é a base do género novelesco. Nabokov criava sonhos. Borges descrevia sonhos. Aproximava-os o ano de nascimento, a devoção por Kafka e Poe, terem ambos decidido que morreriam na Suíça. Separava-os o modo de sonhar. Ou seja: tudo o resto.