4.7.17

Águas correntes quente e frias

Abre o sorriso todo alvo e diz-me com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Sabe doutor, eu acho a água de cá fria. Faz um jeito de arrepio, ombros em dança requebrada, onomatopeia a condizer. Não há como discordar, Dona Aureliana. Eu também acho fria, gosto de mais quente. Quente de outras latitudes. A Dona tinha acabado de tirar da máquina o melhor café do mundo e este tem que ser tomado com tempo, o tempo suficiente para que o aroma inebrie a brisa. Já o melhor banho de mar do mundo tem que ser tomado com o tempo suficiente para que o sal inebrie a pele. O tempo é o modo das águas e dos cafés. O banho bom é aquele em que o corpo habita a água, ainda que seja ao entardecer tardio, ainda que chova como na véspera do dilúvio. Penso mas não digo estas coisas à Dona. Se a ela lhe ataca a saudade da água quente lá dela, a tal ponto que atravesse o equador de volta ao ponto de partida, onde é que eu bebo o melhor café do mundo? E, pior, onde é que eu arranjo temas? O mundo é feito de equilíbrios mais complexos do que balançar a colher na borda da chávena [e agora, está a restante clientela na mesa em frente a olhar alternadamente para a dita proeza e para mim, com ar de puro espanto. Eu também estaria, se fosse eles, leitora.]