12.7.17

Antecipar os risos futuros

Releio frequentemente o seguinte parágrafo de Clarice Lispector: Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus. Tanto o li, que me parece que já o sei de cor. Para que me serve? Da última vez que me tiraram pontos, abotoei a face mais impassível que consegui, lembrei-me dos estóicos que se empilham na estante, e não quis fazer má figura perante Séneca ou Marco Aurélio, menos ainda frente às senhoras de branco que retiravam, mediante puxões impiedosos, fios que pareciam vivos, da minha pele martirizada. E eu, quedo. Aprovaram-me o comportamento. Não é pelos pontos, então.
Ando a equacionar outras oportunidades de aplicação do ensinamento de Clarice. Por exemplo, no penúltimo concerto a que fui aplaudi, caramba, se aplaudi, os músicos naquele palco e nos outros que viriam a seguir. Passados dias, outros músicos de outro continente, outro palco, aplaudi menos que os restantes assistentes na sala, tardei mais a levantar-me para o aplauso de pé, não me juntei ao pedido de encore. Ganharam os primeiros, perderam os segundos e eu aprendi uma lição: não gastar os aplausos numa aplicação só, sabe-se lá quantas demãos mais serão precisas. Reaplicando a lição aos gritos, salvo seja: gritar o que tenho que gritar, quando for de gritar, nem mais, nem menos. Não espero praticar os gritos em breve, assim o Deus do futuro me ajude.
Mas, e se o que estiver em causa forem gargalhadas, pergunta a leitora, com elevado sentido de oportunidade? Pois isso, só a prova empírica. Posso tentar antecipar a quantidade suficiente de risos futuros, para gastar mais do que a minha quota do presente. Se o mundo acabar antes do prazo de vencimento do empréstimo, as gargalhadas que der, essas ao menos, não há Apocalipse que mas fique a dever.