24.7.17

Como proa de submarino

A rapariga que vendia livros escorou-se com a muralha de um sorriso bonito às arremetidas do escritor com canetas no bolso da camisa manchada pelo suor. Contava-lhe ele as suas aventuras na escrita e na vida com face rotunda, raiada de vasos sanguíneos rubros, olhos vítreos, abdómen proeminente como proa de submarino. A mulher do escritor aguardava, sentada, com um livro comprado à menina do sorriso, enquanto o marido se alongava no monólogo pastoso como massa tendida. Naquele espaço curto, e andando eu em maré de coincidências, haveria de aparecer um conhecimento comum, a mim e ao escritor. Do conhecimento comum, todas as minhas memórias envolvem momentos agradáveis. Mas a ele, não. O conhecimento comum tinha-lhe colocado a carreira em ponto morto, recordou à mulher, em tom preciso, quando regressou temporariamente ao porto de abrigo, junto a ela. Vislumbrei num segundo as horas infindas de ódio fermentado, ocorridas muitos anos antes do fortuito encontro. Não quereria ter estado por perto dos dois, então, como estava ali agora. Desabafou e perscrutou o espaço em silêncio. As manchas de suor haviam-se tornado amazónicas. O livro de apontamentos espreitava, como periscópio, do bolso das calças amplas. Respirou fundo, duas ou três vezes. Puxou os ombros para trás e, reposto o amor-próprio, rumou de novo em direção à rapariga que vendia livros, que o recebeu, admiravelmente, com o bonito sorriso com que se escusava às investidas dele.