1.7.17

Como uma canoa sem remos

Deixei cair a alma ao rio. Mergulhou como uma gaivota e alguns salpicos semearam-se-me nos lábios: sabiam a saudade. Emergiu, vogando à tona como um canoa sem remos. Seguia-a no passo dolente das águas ao entardecer. Apanhei-a junto ao estuário. Enverguei-a então. Notei com surpresa que não se ajusta a mim: hoje não me assenta. Ou eu não assento à minha alma. Entre mim e ela existe uma camada de ar: a alma excede aquele que sou. Não quero que a minha alma se reduza: o tamanho da alma é sempre certo. Eu é que tenho que crescer até à dimensão da alma recuperada do rio. Daquele rio que leva consigo o sabor da saudade.