3.7.17

Encontrámo-nos na estrada e ela mostrava o coração a toda a gente.

Um coração grande, almofadado, rubro, oscilante, pendurado do espelho retrovisor central. Condutor consciente, pasmei cuidadosamente, pelo canto do olho. Mudei de faixa e por momentos fiquei em linha reta de vista para o coração, não de perfil mas, por assim dizer, de frente.

Quem sou eu para alvitrar hipóteses para tal exposição de um coração repleno? Perguntasse eu à moça, e ela responder-me-ia, estou em crer, como no poema de Stephen Crane: gosto, porque é almofado [o dele era mais para o amargo do que para o almofadado, leitora, mas perdoar-me-á o torcicolo ao verso] e é o meu coração.

Carreguei no acelerador, injetei combustível no coração do carro, mudei de faixa novamente. O meu coração acelerou um bocadinho com a adrenalina da aceleração, e deixei para trás o coração almofadado.

E foi aí que tive uma ideia, diria original, que deu a prece que se segue: oh Deus, quando projetares o Homem 2.0, almofada-lhe o coração, resguarda-o, equipa-o com airbags. Terão os poetas menos o que cantar, os escritores, os músicos perderão palavras e notas, a poesia penuriará de tema, por certo, mas o sossego que será, oh Deus: ter o coração à prova de toques simples, de choques de frente, de capotamentos até. Tantos corações a salvo: na Terra, o paraíso reencontrado das estatísticas sentimentais.

Já agora, oh Deus, pensa nas condições de atualização para utilizadores atuais. Este que te escreve é candidato. Põe-me em lista de espera. Oh Deus.