30.7.17

Ensaio sobre a rouqueira

Recebo uma missiva escrita a tinta azul cobalto pelo punho de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a passar os seus anos dourados no cálido amplexo da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

Espero que esta o encontre em estado de saúde menos deplorável do que aquele que fontes normalmente bem informadas sobre si me descrevem, por entre penosos soluços de «Pauvre, pauvre J.» Dizem-me as ditas fontes que o meu amigo, por viver como uma planta de estufa, em permanência em ambientes climatizados, está constipado no pico do verão como se fora o pico do inverno, com uma voz, salientam-me, que o tornaria o filho perdido de Tom Waits e Bryn Terfel (as palavras não são minhas, meu caro, não levante o sobrolho assim).

Adiantam-me as ditas fontes, que estão aqui ao lado a olhar para cada palavra que escrevo, e me vão dando cotoveladas que acabarão por me depositar sem remissão nas urgências hospitalares, que o meu estimado amigo, afadigado por entre esplanadas a perturbar o normal fluxo do serviço, na palheta (uso a palavra como ma disseram) com as zelosas funcionárias de balcão, e os locais sombrios e bafientos onde gasta as horas dos seus dias, não terá decerto tratado ainda das férias. Nem planos, nem reservas, nem bilhetes, nada. Sabe que estamos em altura de férias, pois não sabe?

Está portanto intimado a comparecer nesta casa na próxima terça-feira, ao alvorecer, o que pelo que me dizem as minhas fontes, não será problema para si, uma vez que creio que para além de não comer comida d’homem, também não tem descanso d’homem. Aliás, não dorme, ponto. Faça-se acompanhar apenas de um «necessaire» e daqueles seus Vilebrequin amarelos, sempre um sucesso público, que o estimável Reboredo está a tratar de tudo o resto. As minhas fontes já lhe arranjaram até um protetor solar com fator 100 ou 200 ou lá o que é, porque o «pauvre, pauvre J.» tem a pele alva e frágil de um infante, assim me informam.

A única promessa que lhe podemos fazer é que chegará aqui pálido, rouco, subnutrido, olheirento, ensonado e que o devolveremos a si próprio dourado, mavioso, nédio, coruscante e elétrico. Por outras palavras, de um monte de rolhas e de uma pilha de maravalhas reconstruiremos um sobreiro.

Aceite um abraço deste que muito o preza e da fuzilante Orchidée, esta flor argêntea que enche de luz os meus dias e de estrelas as minhas noites. Não se atrase, por quem é, na terça, senão terei que enviar o persuasivo Reboredo para o trazer, a bem, ou mesmo que não. Não importa quantos «Pauvre, pauvre J.» eu ouça das fontes anónimas e lacrimejantes aqui ao lado.

J. Eustáquio de Andrada