26.7.17

Guardador de esperanças

Florival, que exerce a profissão de guardador de esperanças em Alfache, aprendeu o ofício com o pai, Idavide, que por sua vez aprendeu com o avô, Jansênio, que se dizia descendente em linha de sangue real de Nivaldo I, dito o Esperançoso, Imperador de Altineia e primo de Luis XIV, o Rei-Sol. Contava Idavide que, durante o grande incêndio que destruiu Axela, a capital de Altineia, vendo o desespero dos homens perante do fogo, incitou-os Nivaldo a atravessarem o grande rio Touro, vinde comigo sem medo, com esperança, para a outra margem onde estareis a salvo e de onde voltaremos para reconstruir a nossa cidade ainda mais esplendorosa do que antes, assim falou. Ele próprio foi à frente enquanto as labaredas corriam atrás dos axélios, rosnando como uma matilha de cães. Atónitos, os axélios viram o Imperador avançar sobre o rio, caminhando com as passadas largas com que atravessava os longos corredores do palácio logo que os primeiros raios de sol desenhavam estradas retas nas paredes que ligavam o chão ao teto. Os homens, as mulheres e as crianças descobriram então que podiam andar sobre as águas do rio, que as pequenas ondas faziam cócegas nos pés refrescados pela corrente. Os mais bravos, ou antes, os mais estouvados, começaram a correr e só não chegaram primeiro que o Imperador à outra margem porque era coisa de desrespeito fazê-lo. O cognome de Esperançoso nasceu dessa travessia, passou para os filhos e destes para os filhos dos filhos até aos berços de nascimento de Idavide e depois de Florival, que é, diz-se acima, guardador de esperanças em Alfache, fiel depositário de esperanças que podem ser reclamadas pelos próprios depositantes em alturas posteriores em que delas advenha escassez ou emprestadas a quem façam falta. Irmino, presidente da câmara de Alfache acumulou ao longo dos anos um precioso património de esperanças, das quais se tornou um grande depositante nos cofres de Florival. Nos dias em que o vento estaca e as nuvens estacionam em frente ao sol, ou nos dias em que as folhas das árvores vibram ao ritmo do ruído de fundo do cérebro, ou nos dias, enfim, em que os peixes no mar precisam de vir à tona para respirar, sufocados, Irmino vai visitar Florival, preencher o talão, levantar uma esperança. Então o vento volta a soprar, as folhas das árvores caem num sono de bebé, os peixes passam a respirar a plenos pulmões debaixo de água e Irmino volta para o edifício da Câmara a assobiar La donna é mobile, enquanto Florival anota a transação no grande livro do deve e do haver das esperanças de Alfache, com o sorriso lá dele, descendente do de Nivaldo, que atravessou o grande rio Touro a pé firme.