1.7.17

Incitação ao vício

O charuto de Winston Churchill era inesgotável: o puro é de combustão lenta, é certo, mas durante todo o filme esteve sempre como se lhe tivessem acabado de chegar lume. E a ação do filme decorre em seis dias. Já as garrafas de conhaque e whisky, essas notava-se que eram meticulosamente esvaziadas. Churchill fumava no palácio, nos jardins, no carro, nos subterrâneos. Nos abrigos de Londres, quem sobreviveu à aviação alemã, perto terá ficado de morrer de asfixia, pelo menos na proximidade do primeiro-ministro. A capacidade de Churchill para beber também era lendária. Roosevelt, numa visita de Winston à Casa Branca, quis estar à altura do convidado. Antes, tinha recomendado à mulher que abastecesse a garrafeira de bons espíritos. Quando o britânico regressou a casa, Roosevelt precisou de dormir dez horas, durante três noites seguidas, para recuperar das «horas de Winston.» Foi Lincoln que disse que não se pode confiar num homem sem vícios para ter virtudes. De Churchill se sabe que fumava e bebia. E não era segredo de estado que o fazia. Diz a lenda que Lady Astor ouviu no parlamento o que hoje seria um deplorável insulto: «Minha cara, eu amanhã estarei sóbrio, mas a senhora continuará a ser abominável», após ter sido por esta acusado de estar «abominavelmente embriagado». Ora isto leva-me a pensar que me conheço apenas duas dependências: café e livros. Tão parco em vícios, é certo que serei mísero em virtudes. Por outras palavras, não posso ser boa peça. Como esperava.