7.7.17

O lápis azul do censor

«Toda ela sorria, e contudo tinha o rosto quieto e vivo como uma rosa de sol, uma rosa de Natal ou qualquer outra flor de poetas. Talvez Desnos, Maiakovsky, ou Van Gogh, ou Eluard. Ou talvez até nenhum destes; e muito menos Gide, Debussy, Pessoa, porque um momento assim é a véspera do estado de graça quando as palavras perdem querido o sentido e a força real, os gestos oh querido trazem uma nova linguagem, a glória, a inteligência física...»

[José Cardoso Pires, Histórias de Amor, livro retirado do mercado pela censura em agosto de1952, no mês seguinte ao da publicação. Assinaladas, duas das frases por onde o lápis azul do censor passou. O amor é sempre visto como ameaça pelos regimes inamovíveis.]