2.7.17

Regressarei um dia destes ao Chico como Ulisses a Ítaca

Sinto falta dos jornais de domingo neste café onde irei daqui a pouco, não sei se a leitora está a ver. Sempre folhearia a revista do Correio e arranjaria de certeza tema suculento para esta minudência. Assim, será prosa etérea, esvoaçante, toque de pata de ave. A revista do Correio ao domingo, quando vou ao café do Chico, é o meu ponto de aferição no globo, a colher que ajuda a provar o caldo do mundo real, essa sopa de pedra feita com seixos de granito rolados, muita dureza, pouca hortaliça. Este não é o café do Chico, não há passos de tango, nem abraços à chegada, nem pastéis estaladiços como os da antiga fábrica, que me deixam o colo cheio de maravalhas de massa folhada e açúcar pulverizado.

Regressarei um dia destes ao Chico como Ulisses a Ítaca, mas entretanto, tenho provações para enfrentar, cantos de sereia para desouvir, naufrágios onde me estilhaçar. Exagero, ouça a leitora clamar. Um bocadinho, ma non troppo, defendo eu o penálti direto do pé da leitora à minha deambulação aleatória.

Talvez eu lhe devesse pedir a «ele» os jornais, que ontem tinha mais do que um em cima da mesa: a Bola tinha de certeza, não é que eu seja grande leitor de tal bíblia, mas sempre me entretinha. «Ele» franziria o sobrolho por detrás dos óculos de massa preta, e assentiria com um leve aceno de mão, em jeito eclesiástico. Podia ser diácono, cónego, bispo até. O gesto assentar-lhe-ia como uma opa.

Usa o cabelo primorosamente penteado para trás, o pólo com jacaré primorosamente para dentro dos chinos, que estão primorosamente vincados e caem primorosamente sobre os sapatos de vela que evitam, parece-me, primorosamente qualquer saída das ruas da cidade. O pólo do jacaré está ligeiramente saliente na região estomacal, prova de uma prosperidade moderada, de uma posição confortável na vida, na cadeira de gerência de cada dia e no sofá do merecido descanso noturno. Talvez eu lhe devesse pedir a «ele» os jornais, a «ele: um bastião da tradição, homem da Bola e do Correio. Tantas vezes o encontro que já merecia ter um nome. Um homem que tem tudo o que quer, como Filipe II, talvez até tenha um fecho éclair, só lhe falta um nome. É tempo de resolver tal injustiça, não é? Doutor Dâmaso Cândido de Salcede, parece-me perfeito, não parece, leitora?