21.7.17

Uma minudência após a indulgência

Se Potemkin não era couraçado, muito menos o será um banal escrevinhador a viver neste jardim de amenas temperaturas, em esplanadas tranquilas, onde a couraça é inútil sobrecarga. Um homem não é de ferro, ia quase dizendo, mas não disse, quando pedi a sobremesa indicadora de gulodice reprimida, caindo a pique no poço da tentação. Dona Yara, diligente, lendo nos meus olhos a metanoia de dois mil anos, pelo menos, de herança judaico-cristã, disse com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Leva frutos, doutor. [Intervalo grande.] E soja. [Com tom de contrabandista de uísque na era da proibição.] Ah, leva soja. É praticamente como obter uma indulgência trazida pela pomba do Espírito Santo da Praça de São Pedro. Já me salvou a alma, Dona Yara. E agora aproveito para escrever à leitora esta minudência inconsequente, enquanto não desfaço o sabor do pecado com o café a seguir. Pecar por pecar, ao menos tira-se partido do dito, pois não é leitora? E como leva soja é, quando muito, um pecadilho, coisa de nada. Minudência, também.