14.8.17

O verão de Mr. Gordon (Epílogo)

«Imaginar que é possível reescrever o passado, é um desvario inútil», afirma Mr. Gordon, para logo complementar: «Mas quem de nós nunca sentiu a vontade de poder fazê-lo, ao menos uma vez?» Desenha uma linha reta na mesa, com o dedo. «Tive uma vida preenchida, exerci a profissão que escolhi, mas muitas vezes pensei: e se eu não tivesse tido que ficar e Rosa que partir? Que seríamos nós, agora?»

Gordon estava abalado mas não tinha nada partido. Rosa amparou-o até ao carro, levou-o à Covilhã, às urgências hospitalares, esperou com ele, conversaram como conhecidos de longa data — não mais do que isso —, deixou-o em casa, recusou o convite para um almoço tardio. «Tough», sorri Gordon. Mas ao entardecer ainda lhe telefonou, para saber dele. No domingo, ele sentia-se suficientemente bem para ousar conduzir e telefonou a convidá-la para jantar. Sentia-se, disse-lhe, em dívida para com ela, uma dívida de grandeza tal que nem mil jantares chegariam para pagar um por cento. A dívida fazia-o sentir como se andasse descalço pelas rochas, confessou-lhe. Do outro lado, ouviu uma gargalhada: «Para a próxima, vai descalço. Não tombarás de certeza.»

«Amanhã vou para Berlim», remata Gordon, examinando o copo de água borbulhante, raiado do reflexo verde da hera do caramanchão. Desde que tinha sido desmobilizado, nunca mais voltara à cidade onde ele e Rosa se conheceram. Acompanhou, em Denver, emocionado, a queda do muro em 1989, a unificação alemã. Mas voltar lá, sempre pensou, apenas com uma pessoa.

«E Rosa?», pergunto.
As maçãs do rosto de Mr. Gordon tornam-se mais salientes, os cantos da boca sobem em direção aos olhos vivazes: «Vamos juntos.» E resplandece.

[Parte V]