13.8.17

O verão de Mr. Gordon (IV)

«Eu e as montanhas temos uma relação conflituosa», diz Mr. Gordon. Arregaça a manga e mostra-me uma longa cicatriz no braço direito, ainda rósea. «E por vezes, elas levam a melhor.» Conta-me que uma vez, nas Rocky Mountains, teve que ser retirado de helicóptero, após uma queda que o imobilizou no hospital durante semanas. «Ganhei alguns lingotes de platina nos ossos.» Era mais novo, então: passados poucos meses, e alguma fisioterapia, voltou à montanha. «Agora esta, devo-a à Star Mountain», anuncia apontando para a cicatriz recente.

Mr. Gordon, na verdade não tinha um plano B para voltar à fala com Rosa, após a última recusa: queria apenas estar próximo dela. Sabia, ou intuía, que um dia o destino os colocaria no mesmo caminho, como o fez em Berlim, quando ela ia a correr à chuva, escorregou e não fora agarrar-se a ele, teria caído aparatosamente. Assim se conheceram.

Julho chegou. Gordon refugiava-se nos trilhos da serra, que lhe começavam a ser tão familiares como os que frequentava nas Rocky Mountains. A cada dia, os caminhos levaram-no para mais perto de Gouveia, a terra dela. A curiosidade metódica de geólogo amador impelia-o a trepar a zonas instáveis para recolher amostras. Um risco calculado, mas ainda assim um risco, que ele assumia com um zelo de colecionador. No segundo sábado de julho, ao final da manhã, num declive especialmente acentuado, sentiu um pé a deslizar, arrastando consigo o corpo que se enrolou sobre si próprio, um cilindro humano fora de controlo. Colocou instintivamente os braços em torno da cara e rolou, com a carne a macerar-se na descida como se estivesse a ser triturada numa mó. Uma pedra aguçada rasgou-lhe um lanho no braço. Quando finalmente parou, sentiu que os músculos não mais lhe obedeciam. Mexeu cuidadosamente as mãos, depois as pernas, ouviu-se respirar. Parecia inteiro, mas debaixo da pele o corpo era um saco cheio de vidro moído. Estava estendido num caminho de terra batida, o sol a pique, mordente. Com os olhos semicerrados, entreviu uma sombra por cima e, de seguida, uma voz a repreendê-lo: «Hartnäckiger Mann.» Sim, um homem teimoso. Era Rosa.

[Parte IV]