10.8.17

O verão de Mr. Gordon

Os olhos de Mr. Gordon movem-se com vivacidade na face pintalgada pelo sol intenso da véspera e as palavras saem-lhe céleres no inglês além-Atlântico. Debaixo do caramanchão, no jardim semeado de estátuas de mármore onde nos encontramos, o Tejo espraia-se lá em baixo, à distância, do meu lado direito. O vento desafia as abas largas do seu chapéu de palhinha, ao jeito da representação do Infante ali perto, mas é mais seguro mantê-lo na cabeça do que pousá-lo na mesa. Havia-me perguntado se eu falava inglês, frente à Natividade de Ghirlandaio. Pois que sim. Vimos e comentámos os restantes em conjunto e continuámos a conversa na mesa café do Museu. Mr. Gordon nasceu no dealbar da década de cinquenta, em Denver, o terceiro filho de Annie, e de Charles, veterano de Iwo Jima, que casaram assim que este foi desmobilizado. Aos dezoito anos também ele, Gordon, entrou para o exército, vindo a ser colocado em Berlim, em plena guerra fria. Foi lá que conheceu Rosa, luminosa como as rosas no seu vestido de chita, radiosa como o amanhecer. Mr. Gordon mal sabia alemão na altura e ela não falava inglês, embora o seu alemão fosse fluente. Enquanto me conta dos seus cinco dias com Rosa, em Berlim, as palavras de Mr. Gordon tornam-se mais lentas, como se pretendesse agarrar as horas que precederam o embarque dela para Portugal. Tivesse na altura podido e não a deixaria partir; ou então, teria vindo com ela. Mas nenhuma das duas era opção. Apenas o nome da terra dela lhe ficou, e uma vontade de a voltar a ver que o perseguiu toda a vida e que finalmente o leva a estar aqui neste jardim, hoje.

[Parte I]