4.8.17

Posições extremas e perigosas

— Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas — bramava J. E. de Andrada. — Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?

— Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nos Orientes, são boas para quem ganha o pão nosso no Forex.

— Mas quem é que está a falar disso? — clamou J. Eustáquio. — Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?

— Já eu, sublinho a torto e a direito — sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J.

— Mas você não é exemplo para ninguém — atirou J. E. de Andrada. — Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.

— Pauvre, pauvre J. — murmurava a dulcíssima Orchidée. — Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?

— Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?

— Eu sou de ascendência nórdica — disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho, saltitante como um arpejo.

— Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?

— Uma praga, Andrada, indeed. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.

— Não esperava menos de si, Moraes. Já aqui do J....

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante.

— Eu bem digo, já aqui do J.... — concluiu Andrada. — Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?

— É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada — sugeri eu.

— Há que cortar o mal pela raiz! — corroborou o lente jubilado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado embrenhados nos telefones para lhe prestar atenção.

[A. de Moraes]