13.9.17

Sardinhas e alfacinhas

‘Lisboa cheira a sardinha,’ diz Dona Aureliana. ’Os lisboetas gostam muito de sardinhas assadas, pois não gostam?’ pergunta a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador, e eu olho em volta, a ver se há algum lisboeta que se acuse, que se chegue à frente, ainda que ali sentado. Mas a Dona não espera, e continua, ‘Ora o que é que umas sardinhas assadas estão mesmo a pedir?’ As respostas possíveis são múltiplas e a única errada é um fio de azeite, que sardinhas das boas não precisam de azeite para nada, mas isso não disse à Dona, até porque ela respondeu, ‘Estão mesmo a pedir uma salada, é que uma salada é que vai mesmo bem com as sardinhas.’ Pois vai, confirmo e assino por baixo, até levo ao notário para reconhecimento. ‘Ora a salada leva o quê?’ A Dona adotou um método socrático, vai levando a audiência através de perguntas, pescando a sapiência ancestral dos ouvintes da hora de almoço. ‘Alface, a salada leva alface,’ concluiu, triunfante, perante os assistentes siderados com tal conclusão inesperada. ‘Os lisboetas comem muita alface por causa das sardinhas. Daí o nome.’ E a Dona rasgou o sorriso vitoriosamente alvo. Poderia ter terminado em latim, ‘Quod erat demonstrandum,’ sob o aplauso apoteótico dos poucos, mas entusiásticos, comensais na mesa. Minutos antes a Dona não sabia ainda que lisboetas e ‘alfacinhas’ são sinónimos, ‘Alfacinhas? Ah sim? E porquê?’ e eu titubeei e os restantes pigarrearam e todos olhámos uns para os outros, com olhar de gamos apanhados em plena luz a meio da estrada. Veio a Dona em auxílio de si própria, cozinhando na hora a teoria supra, que foi recebida com graves sinais de assentimento. Eu comi algo com bacalhau e muitas verduras, e nada de alface, menos ainda sardinha. Mas que a conversa me abriu a vontade de uma sardinhada com uma salada rica de alface, lá isso não posso negar.