13.10.17

Fragmentos

O homem que ontem, antes da meia noite, dançava na rua consigo próprio, a subir a calçada, dava um passo, parava, rodava sobre si, periclitante, pé hesitante, corpo desafiante das leis da gravidade. Estaquei a olhar, à espera de ter que fazer de samaritano, não sei se bom, de o levar ao hospital de emergência caso a dança etílica o fizesse voar sobre os paralepípedos. Chegou ao topo da calçada, eu respirei de alívio e voltei ao carro, estacionado propositadamente longe. E tanto mundo que se vê numa rua à noite. A rua, sendo uma casca de noz como a de Hamlet, é também um universo, como o de Borges, que cita Shakespeare, espelhando-o.
*
Ishiguro não leu Vinicius, quero crer. A escrita de Ishiguro é a de um ilusionista que mostra com uma mão e esconde com a outra. Não encontro beleza no ilusionismo, contudo. E, lá está, parafraseando Vinicius, o comité sueco que me perdoe, mas beleza é fundamental.
*
Sentado na esplanada, enquanto escrevo estas palavras, constato que o café, ainda que quente, esfriou mais depressa do que há uma semana. O outono surge-me de dentro de uma chávena. Já o frio surge-me de dentro de mim e nem o café outonal me vale.