20.10.17

O semáforo e o polegar

Na fila longa do semáforo da avenida, acontece-me olhar para o lado e reparar então que o condutor gesticula animadamente, que levanta o polegar direito em jeito de saudação, que mostra os dentes alvos, num enorme sorriso, por entre a barba cerrada, que todo este entusiasmo a mim é dirigido, a mim que percorro então rapidamente a galeria de retratos que guardo na memória e não encontro aquela cara, segunda volta e nada. São vinte e uma horas de uma sexta-feira longa de uma longuíssima semana, faço o que julgo ser o meu melhor sorriso, levanto os meus dois melhores polegares do volante, posso fazê-lo porque estou parado, se alguém me visse do exterior pareceria decerto Mr. Bean transplantado para o centro da cidade, o outro condutor redobra o entusiasmo no cumprimento, o semáforo abre, ele arranca, ainda de polegar levantado, eu retorno os polegares onde pertencem, ao volante, polegares que justamente, têm a forma de ponto de interrogação: que fiz eu para merecer isto?