14.11.17

Café de força dupla

São os dentes, diz Dona Yara, na fala lá dela que atravessou o equador, para justificar os seus olhos pesados de sono, o sorriso ausente, o gesto vivo, mas mais lento do que já o conheci. A pequena Soraia tem os dentes a irromper e Dona Yara as pálpebras a fechar. Tenho tanto sono, doutor, lamenta a Dona. Evidentemente não vou receitar o meu próprio remédio para noites curtas demais: um café de Dona Yara. Toda a gente sabe que um remédio não causa efeito em quem o prepara. Mas também não preciso receitar nada. É que a Dona volta, com o olhar de novo desperto e brilhante: Sabe que a menina faz amanhã um ano? Por acaso sei, que eu tomo nota destas coisas, mas isso não digo. Amanhã faço questão de lá estar de manhã bem cedo para dar os parabéns à mãe. Vou precisar de um café de força dupla, mas também quando é que não preciso?