15.12.17

Pinga-amor

Impecável no colete preto e camisa branca, tão alva quanto o cabelo que rareia já, e enquanto me serve o vinho, o Senhor Vieira vai adiantando que um homem, a partir de certa idade já não se apaixona. Pode ter uma inclinação, pode gostar, pode ter um fraquinho, é verdade, mas paixão, paixão como a que ele teve aos dezanove anos, um homem a partir de certa idade já não tem. Paixão daquelas, assim de amor da vida dele, que ele já teve outros amores, mas como aquele, nunca voltou a ter e agora, já homem de certa idade, não há paixão que lhe chegue, que passe o enguiço. Alonga-se, que encontrou aqui bom ouvinte, alonga-se dizia eu, pela história das paixões, e eu que sou bom ouvinte, como já afirmado, mas homem que sabe guardar segredos, vai-me desculpar a leitora, mas o que o Senhor Vieira contou, daqui não sai, o espaço do restaurante é público, mas o que ele contou é privado. E o que ele contou são histórias comoventes, de encontros, de incêndios, de desencontros, de amores distantes com continentes de permeio, e agora de reencontro tímido por via escrita há meses, de potencial encontro dentro de semanas, e o Senhor Vieira empolga-se, adensa a narrativa, e eu a pensar que o senhor Vieira podia escrever um livro que eu lia, de certeza, quando lá voltar digo-lhe, aquele amor dava novela, assim ele pegasse na pena para escrevê-la, e à medida que ele fala, quanto mais fala mais me convenço, que o Senhor Vieira, um homem de certa idade, que não se apaixona desde os dezanove anos, pois na verdade, não se apaixona porque, nestes anos todos, o Senhor Vieira não deixou de gostar mais do que muito da Dona Alberta, e eu era capaz de jurar, era capaz de apostar até, se houvesse forma de desempatar a teima, era capaz de por bom dinheiro em cima de mesa se encontrasse parceiro de aposta, em como o Senhor Vieira, aquele pinga-amor, está perdido de paixão.