31.3.17

o crescimento do mundo

desde que olho para o mundo por mim e por ti
desde que os teus olhos habitam os meus
o mundo cresceu — sabes?
há tanto mais mundo 
e tanto mais tu —
no mundo

O fluir caprichoso do tempo

Quero chegar aos cem anos o mais lentamente possível. Mas quero que certos dias no caminho dos cem anos cheguem o mais depresssa possível. Claro que para que a conta dê certo, outros dias terão que decorrer muito devagar. Preciso de um tempo com geometria variável e não sei onde encontrá-lo.

Cor de laranja

O homem dos Crocs cor de laranja diz-me que eu tenho bom feitio. Agradeço enquanto faço mentalmente a lista dos itens que o contradizem. Mas claro que ele não sabe, nem eu os sei todos e menos ainda lhos direi. Quando o deixo vou, atipicamente, beber um sumo de laranja que me sabe como ambrósia. Não tivesse eu bom feitio e deitava a culpa do atípico nos Crocs.

30.3.17

Frágil, frágil

Mesmo restaurante, mesma hora. Os mesmos dois irmãos, a mãe. Perdi-me eu a falar de irrelevâncias inconsequentes noutra mesa, lá na minha conversa. Perdi-os a eles de vista e só voltei a vê-los quando passei ao lado da mesa, junto à saída. A mãe estava muito atrasada no almoço, notei então. O avanço deles era imbatível. Tinham retirado meticulosamaente as espinhas e a pele ao peixe, e disposto os fragmentos brancos no prato, em porções tão diminutas que até a mãe conseguiria comer. Ao ritmo dela, que não é o deles. Eu almocei o mesmo, eles estavam a almoçar o mesmo, a cena e os protagonistas eram os mesmos. Apenas mudaram as mesas e um ou dois pormenores sem importância no contexto. A história repete-se essencialmente sem alterações.

29.3.17

O exercício absurdo

De um olhar livre
se vive
António Ramos Rosa

Faço o exercício absurdo de reconstruir o dia e mais do que as palavras tento reencontrar as cores. Há o verde da relva e o amarelo do bico do melro e o azul traçado de branco do céu e o lilás das flores pendentes. Talvez ao reconstruir fiquem apenas as manchas, talvez um dia caiba numa tela onde as tintas se revoltaram em vagas brilhantes. Talvez seja esta a forma de aprisionar a luz em grandes lagos polícromos quando o olhar se liberta da tirania das linhas precisas. Talvez
a vida seja a cor,
e a luz a vida,
devida.

28.3.17

Quando lá cheguei

Quando lá cheguei esperava-me o cheiro a relva fresca, o mesmo do lugar de onde parti, e uma revoada de cantos de pássaros. Esperava-me a primavera para um abraço. Senti-o como se fosse teu.

Vento solar

Chama-se vento solar porque insufla a alma quando, proveniente do sol, rasga por fim as nuvens pardas.

[Nem sempre a verdade poética tem que coincidir com a das ciências da natureza, convenhamos.]

O cheiro das ervas jovens

Pousei o derradeiro papel e deixei-me perder no cheiro aguçado das ervas jovens. Procurei a sensação. Ano novo sim, sabe a ano novo. Durará umas horas, muito poucas. O cheiro das ervas perdurará até pelo menos à tarde. A sensação, menos. Não importa. O ano novo mais saboroso é o que aparece mais inopinadamente, que eu bem sei.

26.3.17

Como ser prior nesta freguesia?

Bessa-Luís excita-se facilmente com o que julga subtileza, cultiva a «espontaneidade». O resultado é esta imediata aparência de pretensiosismo irritante, de gratuitidade, de falsificação (como se diz de um quadro que é um «falso»). Irritante ainda — e a propósito — é a autodidáctica exibição de «cultura» com referência a autores, a pintores, etc. Cá temos neste livro um Frei Luis de León, a rainha de Navarra e não sei quem mais. Ora a cultura não se exibe: manifesta-se por si como a civilidade. É um modo de se ser, não de se estar. Irritante ainda é o tom sentencioso de quem detém o segredo das grandes verdades da vida e as lança de alto com autoridade. Em todo o caso, é prudente admitir que a gratuitidade ou falsificação sejam só aparência. Porque de vez em quando a observação acerta, a verdade ilumina-se flagrantemente. É, aliás, arriscado julgarmos charlatanice aquilo a que não aderimos — ou porque o não entendemos. Schopenhauer, que diabo, julgou Hegel um vigarista e Hegel é o pensador mais presente em todo o século XX. Aceitemos pois que o defeito, estando nela, está também em nós.

[Vergílio Ferreira sobre Agustina Bessa-Luís, em Conta Corrente I]

Eu nunca tinha lido Jorge Luis Borges. É à primeira vista, qualquer coisa como um pedante humilde; faz da filosofia um catecismo para disciplinar a literatura. E resultou nessa espécie de provinciano que se pode simbolizar pela Melancolia de Dürer, algo de anjo atlético e de cozinheira que espera que o leite ferva.
Não se sabe se o rodeia uma bateria de cozinha mal disfarçada de bricabraque. Jorge Luis Borges, candidato ao Prémio Nobel em sucessivas tentativas que dedica, decerto, ao seu antepassado Lafinur (1797-1824), como parte da sua antologia pessoal, é terrivelmente um homem de recursos. A sua bagagem intelectual chega para soterrar o seu talento. Faz citações que me curam definitivamente das minhas. As citações são as erupções cutâneas da arte narrativa, um indício da natureza púbere e defensiva. Luis Borges chega à atroz necessidade de citar Daniel von Czepko: Sexcenta Monodisticha Sapientium, III, II (1665). Depois faz maus versos. Pudera! Que diferença entre a inteligência convulsa, monstruosa de Poe, e esta banalidade aristocratizada de sabedoria de Borges! Eu não sei se ele sabe muito, ou se, pelo facto de não querer omitir nada, nos deixa impressionados e banidos da cripta do seu Aleph intelectual.

[Agustina Bessa-Luís sobre Jorge Luis Borges, em Ensaios e Artigos I]

Chuva filosofal

A hora perdida transmuta-se em água abundante, por engenho de um alquimista que prefere permanecer incógnito.

25.3.17

O Lohengrin

Do D. Carlos conta-se esta anedota autêntica: quando foi à Alemanha conversou naturalmente pelo caminho com os que o acompanhavam a respeito do imperador, sua figura, suas atitudes, suas qualidades, etc.
Chegaram à estação e D. Carlos desembarca. Ao fundo avança o Lohengrin, de grande capa branca traçada, e o rei, voltando um pouco a cabeça, murmura para os seus:
— Lá vem o gajo...

[Das Memórias de Raul Brandão.]

Um amigo generoso

O meu amigo Jeff Bezos avisa-me cordialmente que aquele livro que eu estou a hesitar comprar hoje de manhã, e que me parece estranhamente familiar, já consta da minha biblioteca há pelo menos dois anos. Teria mais receita se mo vendesse duas vezes, mas pôs a nossa longa amizade à frente do lucro. Um compincha, o Jeff.

Dançando os dias

Edgar Degas, Dançarinas praticando na barra, 1877

Desenha linhas, jovem, desenha linhas, disse Ingres a Degas. Desenham linhas, as dançarinas de Degas, também elas de linhas desenhadas. Não desenhamos nós as linhas, todas as linhas que dançam em nós. Mas quando desenhamos uma dessas linhas, ah, quando logramos desenhar uma linha nossa, dança-nos o coração.

24.3.17

coroa de palavas

apanho
palavras que brotam 
das gotas de chuva
com elas teço 
uma coroa
para ti

De bandeja

Eu conto à leitora. Irrompo pela porta do café e Dona Yara vai logo dizendo: Bom dia doutor [ouça-se aqui um ponto de exclamação com ênfase na última sílaba]. Cafezinho? Pois claro, Dona Yara, cheio por favor. Pouso o implemento com teclas e ecrã onde escrevo estas missivas à leitora em cima do balcão e Dona Yara pousa o café ao lado e vai dizendo, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Cuidado com seu computador, doutor. A placa de alumínio que se abre aqui à frente, quando está fechada parece uma bandeja, é certo. Mas uma bandeja daquelas de transportar missivas, com entrega por mordomo de luva branca: A letter has just arrived for you, sir(*). A versão cortês de You got mail. Aposto que os senhores sentados lá com vista para o Pacífico pensam nestas coisas, eles pensam em tudo. Eu é que ainda não tinha pensado nisto, em boa verdade.

[* Como diria Jeeves.]

23.3.17

Um jogo perdido

Com aquela fala cantada lá dele que atravessou dois continentes, vem perguntar: Sir, do you want some? Ainda não almocei, não me parece excelente ideia comer bolachas de chocolate a esta hora, declino, mas sei que ele vai insistir. Sei da sua generosidade persistente: da forma como deixa que o pacote fique ali a pairar à altura dos meus olhos, à distância breve da minha mão. E ele sabe que eu vou aceitar, porque abri precedente, cedi à tentação e comi já duas destas bolachas antes. É um jogo que não posso ganhar. Mas que continuaremos a jogar, eu sei. Ele a oferecer, eu a recusar, pouco convicto. Um amável braço de ferro que me condenei, irremediavelmente, a perder.

22.3.17

Onda de indignação

O padrão é conhecido. Alguém, alguma figura das ditas públicas, diz ou escreve uma frase que, no contexto ou fora dele, adquire propriedades comburentes. O incêndio subsequente, a onda de indignação, autoalimenta-se nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais, nas notícias televisivas, no parlamento se a tanto chegar. Na verdade, as gentes carecem de motivos de indignção. Os homens precisam de heróis, dizia Carlyle. Não, os homens precisam é motivos para se indignarem, melhor, de pretextos para expressarem a sua indignação. Motivos para indignação não faltam, a quem estiver atento ao mundo. Mas expressar a indignação é mais complexo. Convém que seja uma indignação consensual, para não ameaçar a paz social geograficamente mais próxima. As gentes não querem ser percebidas como descontroladas. Se houver alguém que se coloque a jeito para ser bombo de festa, e se esse bombo for atingível por vários ângulos e quadrantes, ah, isso é uma sorte, uma benção. A dose regular de indignação é alcançada sem danos colaterais. Porque é tão fácil indignarmo-nos por escrito, num texto de cinco linhas e outros tantos pontos de exclamação, mais fácil ainda fazer replicação, gosto, partilha. Desmond Morris escreveu sobre os hábitos tribais dos adeptos do futebol. Sim, o futebol é um magnífico pretexto para a indignação coletiva, com rituais sedimentados para uma indignação profícua e catártica. Mas e para aqueles de nós a quem o futebol não permite suprir esta necessidade primordial? Ou permitindo, fá-lo apenas a espaços semanais, em doses demasiado pequenas para tão grande necessidade? Não há que temer. Haverá sempre um escritor, um político, um artista de qualquer das múltiplas artes de palco ou tela, que se prestará a ser tritinitolueno agitável. Consumada a explosão, o explodido continuará na sua vidinha, sendo o episódio recordado apenas esporadicamente, com intervalos temporais cada vez mais espaçados. Até pode proferir nova atoarda, que a primeira funcionou como vacina. Não mais despoletará indignação, apenas um encolher de ombros. A sede de indignação não se sacia com repetições. Nenhum ritual tribal sacrifica a mesma rês duas vezes. A onda de indignação anseia por deflagrante novo. Mas não tardará. A esta mesma hora, alguém, algures, estará a abrir a boca ou carregar nas teclas para debitar uma frase fatal. Amanhã, recomeça tudo, com uma onda de indignação novíssima. Necessária e merecida.

21.3.17

Onde é que estão os poetas?

Agora que a poeira assentou, os tapumes foram levantados, as ruas brilham de tão jovens, podem avançar os poetas. Alguém cante Lisboa, que já tarda.

Peças do puzzle

Prefiro as obras iniciais de Picasso, as intermédias de Borges e as tardias de Beethoven. Isso diz mais sobre mim do que sobre os autores e a ditas obras. O quê, não sei. Ainda ando a montar o puzzle.

Trocas e pombos

Troco o pacote de açúcar por uma colher, digo eu a Dona Yara. Oh, desculpe doutor, isso não está legal, diz-me a Dona, ralada por ter trocado as minhas idiossincrasias. Ora essa Dona Yara, ora essa, não há de quê. Não lhe digo que não tivesse ela feito a troca, não teria assunto para escrever à leitora, enquanto me sento absolutamente sozinho na esplanada, tendo apenas um pombo por companhia. E isso, talvez dissesse a leitora, isso de não dar notícias, é que não está legal. Sinto-me tentado a concordar com a leitora, sabe?

20.3.17

Medidas implícitas de distância

Cada dia mais longo leva-me para mais perto de ti.

Os últimos quartetos de Beethoven

Ouvi-me a falar dos últimos quartetos de Beethoven como se estivesse a escrever um texto para este retângulo branco. E não percebi se eu escrevo o blog ou se ele me escreve a mim.

Perdidos

Os telefones pousados em cima da mesa, a atenção centrada nas cartas. Quando passei por eles, o meu olhar prendeu-se nas moedas empilhadas. Esperaria vê-las numa mesa onde estivessem os respetivos avôs, não eles. Mas ali estavam ao final da manhã, com as mochilas de escola ao lado, olhar fero, gesto determinado. Perdidos no jogo. Ou antes, ganhos no jogo. Embrenhados num jogo real, daqueles onde perder dói mesmo. Tal e qual como na vida, fora daquela mesa, onde os telefones estavam pousados.

19.3.17

*

Precisamos de escritores que se lembrem da liberdade

Acho que nos tempos difíceis que se aproximam quereremos as vozes de escritores que possam ver alternativas a como vivemos agora e possam ver para lá da nossa sociedade atingida pelo medo e pelas suas tecnologias obsessivas, para outras formas de ser, e até imaginar alguns fundamentos reais para a esperança. Precisamos de escritores que se lembrem da liberdade. Poetas, visionários, realistas de uma realidade mais ampla.

[Ursula K. Le Guin, no seu discurso de aceitação do National Book Award de 2014. Tinha, então, 85 anos.]

18.3.17

em partes iguais

o verde foi oferta tua
eu dei o azul

assim sonhámos o dia

A tenda dos milagres

A cuba das bagas goji é a única esvaziada no supermercado de produtos a que chamam biológicos.

A ganhar terreno

Ela enrola o cabelo longo, ele a barba rasteira. Mas é muito mais rápida, ela.

Prioridades das importâncias

Quando digo alguma coisa, isso perde imediatamente e totalmente a importância, quando escrevo, também a perde,  mas por vezes ganha uma nova importância.

[Dos Diários de Franz Kafka.]

17.3.17

O dilema do contador

Deve o contador contar as histórias que não lhe pertencem? Mas e se se perderem, não sendo contadas?

Frágil, frágil

Está com soninho, mãe? pergunta um dos dois irmãos, são tão parecidos, enquanto o outro arranja o peixe-espada. Bom proveito, mãe, e o peixe vem no prato, sem pele e sem espinha. Frágil, frágil, a mãe. Tem feito a fisioterapia, mãe? Que não. Tem que fazer, mãe. E a mãe torna-se filha, e os filhos, pais. E tão parecidos que são. Agora reparo, vestem os três de castanho. Ou seja, o casaco da mãe é castanho, que o vestido é preto. O queixo, aquele queixo saliente deles, é que era de certeza o do pai.

Aqui, à minha frente

Meninas, boa tarde, diz o Senhor Filipe, quando elas franqueiam agora a porta para a luz da tarde. Da minha mesa vejo o céu, caiado de cal fresca, a mesma que coloriu os cabelos de ambas. De bengala sorridente, ainda hesitam antes de sair. Depois, partem, rejuvenescidas.

Ponto de situação

Ainda não são oito pela manhã e já Dona Yara me deu contas da jovem Soraia, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Está muito bem, muito bem, doutor. Pois que é muito bom saber, Dona Yara, qualquer dia está uma mulher feita. O tempo passa a correr que nem um campeão da Jamaica. Já tomei o café quente, hoje foi quente porque fui muito rápido a escrever as primeiras linhas, e estou pronto a enfrentar o dia. Ou a que o dia me enfrente, o que parecendo idêntico, não é a mesma coisa.

16.3.17

Hora a hora

Procuro o fio condutor no meu dia. Não te encontrei, mas encontro-o. Foste tu.

Um sério embaraço

Um homem que se embaraça a si próprio perante muitos homens e poucas mulheres é um embaraço para todo o género masculino.

[Ah, como me senti embaraçado ao ouvi-lo.]

A maioridade

Uma dúvida premente: que idade teriam Adão e Eva quando foram expulsos do Éden? Teriam atingido a maioridade? Se não, que pai expulsa os filhos de casa antes de estes serem maiores de idade?

Retrato de uma mesa enquanto jovem

Então é assim. Escolhi a maior das mesas da esplanada e em cima dela descansa uma chávena de café em meio arrefecimento. Tenho um livro já muito manuseado, o único que sublinho e que até tem, oh!, papelinhos amarelos e amarelados a espigar das páginas. Tenho uma pilha de papéis brancos e ex-brancos, num dossier à moda antiga. E tenho um ecrã alvo à minha frente, onde estas letras que escrevo à leitora vão saltitando como, sei lá, as notas do concerto que ouvia há pouco, enquanto semaforava até à esplanada. Ali ao lado, Dona Aureliana rodopia como uma abelha que encontrei hoje ao amanhecer, em plena laboração em torno de uma flor amarela, brilhante. E divido-me entre a vontade de ficar aqui a escrever à leitora e a de voltar ao dossier cheio de anotações e decisões. Indeciso, fico-me por aqui. Pelo menos uma decisão: acabar o café, enquanto está ainda um bocadinho de quente. Não vá Dona Aureliana passar por perto, inspecionando chávenas. E tomar a decisão de me expulsar da esplanada, por crime de toma de café frio. Mais do que crime, pecado, tenho a certeza. O pecado original aqui deste Éden.

15.3.17

Vontade secreta

Queria ter sido eu a inventar a água, ou a lua, ou a magia das marés, sabes? Gostaria de ter sido eu a inventar qualquer coisa que pudesse dizer: Olha, criei para ti. Mas não inventei. Apenas posso dizer: Olha, fui criado, não me criei. Mas uma coisa é certa. Fui criado para ti.

14.3.17

Um livro de muitas páginas

A mulher leva um livro de muitas páginas e o homem leva o braço por cima dos ombros dela, como se indo, não a quisesse deixar ir. Creio que ela ficará a sós com aquele livro e ele com a memória daquele abraço, ambos por muito tempo.

poema para ti

se palavras bastassem

escrever-te-ia um poema

mas para ti

só da música de que é feita a luz

um dia meu amor

um dia


10.3.17

o mistério primeiro

que sangue pulsa
neste coração a que chamamos

ternura?

O importante é a rosa

Passo por uma esplanada a meio da tarde e não paro, não vá a leitora pensar que a minha vida é esplanar. Mas para o meu olhar, que esse é um esplanador inveterado. E fixa-se no chapéu branco de abas largas, com uma rosa, abaixo do qual está aposto um sorriso que só posso descrever como de plena satisfação. Do sorriso sai o fumo onde noto, mesmo a esta distância, o aroma inconfundível da cigarrilha. Em cima da mesa, um cálice de vinho tinto. Quando regresso, vejo-a já a afastar-se da esplanada com passos cuidados, o movimento lento e ondulado das calças pretas rematadas por uns pumps vertiginosos. O chapéu branco a cintilar ao sol das cinco. Talvez tenha setenta e cinco, talvez tenha oitenta, a idade é desimportante para o caso. Importante é a rosa e o sorriso de contentamento, à vista de quem o queira ler.

O homem de voz profunda e calma

Durante anos a sua voz entrou-me pela sala profunda e calma, como um tio-avô, pleno de sabedoria e experiência do mundo. Quando agora me cruzo com ele no elevador, não é aquele que via no pequeno ecrã. Aparece-me pequeno, frágil, de pele translúcida e andar difícil. As horas, penso então, contamo-las pelos relógios. Os anos, são os outros que no-los contam.

9.3.17

A senhora vestida de branco

Está muito bem: profere a senhora vestida de branco enquanto descola os elétrodos como se retirasse uma presa da boca de jacarés. Sorrio. O meu coração, esse pseudo-fleumático, nunca se desmancha.

Ai eu já pensei mandar pintar o céu em tons de azul

Somos apenas dois na esplanada a esta hora. Ambos com ecrãs e teclados em cima das mesas, que distam uns cinco metros. Uma música de fundo ouve-se ténue, sem se fazer notar até que, de súbito, a voz de Xana acaricia o ar: Ai eu já pensei mandar pintar o céu em tons de azul pra ser original. Instintivamente, olho para o céu, que alguém mandou pintar em tons de azul logo pela manhã. A minha vizinha de esplanada, a cinco metros, começa a dançar na cadeira, sem tirar os olhos do ecrã. Xana continua: Só depois notei que azul já ele é, houve alguém que teve ideia igual. E eu tenho pena de a ideia não ter sido minha. A minha vizinha veste-se primorosamente de azul, até aos pormenores da mala e dos sapatos. Algo que me diz que também ela teve ideia igual.

8.3.17

Ao menos vinte e quatro horas

Conheci e conheço algumas que usaram esfuminho sobre as linhas das suas vidas e assim se esvaneceram. Apagaram-se. A vida construiu-se para o marido, os filhos, os pais, quando se tornam filhos também. Elas, sempre no plano segundo. E quando os netos surgem, é nos netos que projetam a vida que é delas, mas que cedem em empréstimo sem juros. Esquecem-se de existir. Os ritos de passagem dos homens são exteriores. Os das mulheres, interiores. As etapas da vida nos homens são difusas, nas mulheres, precisas. Peter Pan é homem porque nunca poderia ser mulher. Há um significado público, de domínio comum, para o dia da mulher. E há um íntimo, secreto até. É o dia para que as mulheres, especialmente as que se apagaram para o mundo, se lembrem de si próprias, se o puderem fazer. Ao menos por vinte e quatro horas, sejam elas e não o que outros, todos os outros, esperam delas.

7.3.17

Quando eu tiver noventa anos

Vai ser preciso trabalhar sessenta e seis anos e quatro meses [sic] para me poder reformar sem penalizações, diz-me o telejornal da televisão independente. Faço rapidamente as contas: reformar-me-ei perto, muito perto, dos noventa anos. Vai ser uma festa bonita: noventa e reforma. Espero ter ainda muitos amigos, então, que me acompanhem nessa gloriosa dupla efeméride.

Zona de desconforto

E na outra mesa, a que está junto à janela, diz ele para ela: É preciso tirar o outro da sua zona de conforto. Ora no restaurante não se come mal, ou eu não iria lá, o lugar junto à janela onde ele está, é o melhor ou, cliente frequente, não estaria lá, ela olha-o, escutando-o interessada. Estará ele confortável? Eu diria que sim. E é a partir desta zona de conforto que planeia, portanto, tirar o outro da sua zona de conforto.

A verdade em forma esvoaçante

Paul Klee, A máquina de trinados, 1922
Pergunte-se a um pássaro o que é necessário para voar.
Ele responderá: comida e repouso.

6.3.17

Um dos sete mares

Nicolas de Staël, Mediterranée
Quanto mais me embrenhei em terra, mais encontrei o Mediterrâneo. Os rios procuram o mar na direção errada.

Vivendo no beiral

O pássaro do beiral apareceu às seis da manhã. Acordei com uma revoada de trinados, o passado a treinar um arpejo nas teclas do canto. Depois, como chegou, parou. Veio colocar o padrão, marcar posição e voar. Pássaro livre, este. Aparece a desoras, desaparece por dias, não dá sinais nem manda postais. Deixa-me feliz quando surge, inquieto quando some. Este pássaro faz-me viver no beiral.

5.3.17

Urge no domingo à tarde

O carro à minha frente detém-se na margem da passadeira. Paro e aguardo. Nada acontece na passadeira, não há peões, na rua ninguém anda: apenas dois carros parados. Olho de novo, a passadeira continua vazia. Deve haver um bom motivo, abstenho-me de quebrar o silêncio. Ultrapasso. Ao passar, olho, tento entender a causa da paragem intempestiva, desnecessária do meu ponto de vista. Mas o meu ponto de vista tem um ângulo morto. A causa premente é o beijo do condutor e da passageira. É domingo, final da tarde, a luz escoa-se, rápida. Não pode haver outra justificação, melhor, para um beijo urgente.

O problema não é ela, sou eu

Ana Luísa Amaral fez uma tese de doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson. Eu sou apenas um leitor da poesia de Emily Dickinson. Ana Luísa Amaral ter-se-á angustiado horas infindas para achar os cem poemas de Emily Dickinson que optou por traduzir. Eu apenas me angustiei com as traduções de Ana Luísa Amaral, onde não acho a poesia de Emily Dickinson. Nem poesia alguma. Admito: o problema não é ela, sou eu.

The things we thought we should do
We other things have done
But those peculiar industries
Have never been begun –

The Lands we thought we should seek
When large enough to run
By Speculation ceded
To Speculation's son –

The Heaven, in which we hoped to pause
When Discipline was done
Untenable to Logic
But possibly the one –
Das coisas que entendemos querer fazer
Outras coisas fizemos
Mas essas diligências em concreto
Nunca foram sequer iniciadas –

As Terras que entendemos querer ver
Quando tínhamos fôlego
Cederam-se em Hipótese
A Hipótese deixada –

O Céu onde esperávamos repouso
Quando o Rigor se fosse
Tal não o prova a Lógica
Mas talvez seja isso –

Aqui à frente

É um deus simples, pede a Dona do café ao colega dextro. Deus, dizem, está em todo o lado. Mas simples, é só aqui.

4.3.17

Sete colinas

Em cada uma das setes colinas te vi
e em nenhuma delas te encontrei.

Dos que pouco dormem

Julgando eu que não dormi muito e que ostentarei o meu mais cerrado carão sonolento, os bocejos alongados do guarda-noturno fazem-me sentir um autêntico paxá.

3.3.17

A sabedoria dos nossos sábios

Ainda do Guia para os perplexos: Nos nossos sonhos, por vezes acreditamos que estamos acordados, e que contamos o sonho a outra pessoa, que explica o significado, e tudo isto acontece enquanto sonhamos. Os nossos sábios chamam a isto um sonho interpretado num sonho.

Advertência sobre os anjos

Não se imagine que um anjo pode ser visto ou as suas palavras ouvidas de qualquer outra forma que não seja uma visão profética ou um sonho profético, adverte Maimonides, no Guia para os perplexos.

Nem por sonhos, penso eu, conformado.

A longa barba do presidente da América grande de novo

Durante a ausência de Ricardo Coração de Leão, os seus súbditos ingleses não apenas cortaram os cabelos, mas escanhoaram os rostos. William Fitzosbert, ou Barba Longa, o grande demagogo daqueles tempos, reintroduziu entre as pessoas que diziam ser de origem saxónica a moda dos cabelos longos. Fez isso com o objetivo de torná-los tão diferentes quanto possível dos cidadãos e dos normandos. Usava a sua própria barba dependurada até à cintura, de onde o nome pelo qual ficou conhecido para a posteridade.

[Colhido em Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds que Charles McKay publicou em 1841.]

Tão pequeninas que são

A senhora aqui ao lado está a narrar ao telefone coisas da vida lá dela e acaba de encontrar na prateleira o seguinte, eu passo para diálogo, para a leitora visualizar melhor a cena: Sabes o que está aqui? pergunta a senhora ao telefone, a quem tuteia. E dá a resposta: Sementes de chia. Pausa. Estas são tão pequeninas. Mas se se colocaram em água devem inchar, não devem? pergunta a senhora ao telefone, que mais parece um oráculo. Tento-me e retraio-me para não dizer à senhora que umas gotas de limão na água das sementes de chia tornam supimpa a bebida. Isso, e que as sementes de chia são naturalmente mais pequenas que as nozes, as pevides de abóbora ou as sementes de girassol. Mas não digo. E o telefone oráculo da senhora também se mantém mudo e quedo. Nem chia, por assim dizer.

Escrever à chuva

Sou o único cliente na esplanada nesta manhã chuvosa. Aqui à frente o café arrefece enquanto as letras saltitam no ecrã. É um café e um pão de deus, Dona Yara, pedia eu há pouco. E Dona Yara, de serviço ao balcão da máquina desesperou porque o braço é curto e o pão divino está noutro balcão. É só um minuto, disse ela naquela voz lá dela com toque de aflição que atravessou o equador. Eu espero, Dona Yara, afinal ir lá para fora com este tempo, e não concluí, que o cantar da chuva é mais eloquente do que qualquer discurso sobre ela. Doutor, minha colega Aureliana dá-lhe já o pão de deus, Aureliana é eficiente. Não se preocupe, Dona Yara, não há pressa, digo eu equilibrando o café, a gabardine e o chapéu de chuva à porta periclitante. E sou salvo pela eficiência certificada de Dona Aureliana e sento-me num lugar a salvo da chuva e surge-me esta vontade de escrever à leitora para dar conta destas minudências inconsequentes. Ao lado, a chuva canta, tentando suprir a ausência do canoro do beiral, acolhido por certo em parte incerta. Distraio-me a escrever e tomo o café no instante exato antes de ser considerado oficialmente frio. Não posso contar do café gelado a Dona Yara nem a Dona Aureliana, senão sou expulso sem remissão. Digo apenas à leitora e fica só entre os dois, combinado?

[O céu parece querer cair agora aqui em cima. Vale-me o chapéu de sol em dia de chuva, que a alma benfazeja de Dona Aureliana abriu. A arca de Noé pode ser uma esplanada, concluo.]

2.3.17

ramos e folhagem

percebeu-se como árvore

a folhagem abrigá-la-ia
nos dias de sol

os ramos defendê-la-iam
nos dias de chuva

só a terra protege do céu

Toshta mishta

Diz ele para ela, com aquele sotaque lá dele que atravessou o Atlântico: Vamos comer uma mishta, uma toshta mishta. Que é uma mishta? pergunta ela com o mesmo sotaque, igualzinho. É uma toshta feita de massa de croissants, mas leva queijo e fiambre dentro, clarifica ele. E eu, que já comi a mesma toshta mishta bastas vezes, acabo de perceber que não percebo nada de pão, daquele bom pão saloio que eu pensava que era usado na toshta mishta, eu que peço: É uma tosta mista em pão saloio, se faz favor. E afinal é massa de croissant. Talvez das lendárias e seculares croissanterias da Malveira, digo eu.

O pássaro das ausências

Já passa largamente das nove, e do pássaro do beiral nem pio. Aproveitou a minha ausência para se ausentar, o ladino. Mal sabe ele que o levei na alma, e que lhe trouxe poemas que posso dizer baixinho ao amanhecer, a troco de trinados, e que lhe trouxe lendas milenares que posso contar, a troco de cantorias. Ausente ele, o que faço a estes tesouros que guardei no alforge de almocreve? Aposto que amanhã me aparece às seis da manhã, a trinar como se não houvesse depois de amanhã. E aposto comigo que perco esta aposta. Procura-se pássaro de beiral. Alvíssaras a quem trouxer notícias. Poemas, lendas, apostas perdidas. Até um coração.

1.3.17

Estado alterado de perplexidade

Amar não nos torna mais frágeis. Torna-nos antes mais perplexos pela nossa fragilidade.

O dilema do pobre aprendiz

Há no Japão, dizem-me, pessoas que estudaram e praticaram Chá todas as suas vidas sem atingirem a perfeição, tão delicadas são as regras.

[Colhido em Myths to live by, de Joseph Campbell. A que pode então um pobre aprendiz ocidental almejar, quando prepara um Matcha?]