23.1.18

A memória gigantesca de Funes

«Pensei que cada uma das minhas palavras (cada um dos meus gestos) perduraria na sua implacável memória». Isto diz Borges, sobre Funes, o Memorioso, o homem incapaz do esquecimento. Sobre ele, diz ainda: «Entorpeceu-me o temor de multiplicar memórias inúteis.» 
As gentes vivem hoje perante Funes, sem que se apercebam, sem que o temor das memórias inúteis as entorpeça. Porque não entendem esta nova, tão nova, persistência do presente. Porque não houve ainda tempo suficiente para apreciar o que é viver com um passado que é impossível apagar, esquecer, recontar, sequer. Tudo o que é hoje colocado a público, é eterno, no sentido em que perdurará para lá do tempo de existência de quem quer que disponibilize partes da sua vida ou da de outrem sob qualquer forma de partilha em rede aberta. Funes deixou de ser uma exceção, com lugar num livro de histórias fantásticas. Funes é a normalidade, Funes é omnipresente.

[Numa futura entrevista, daqui a dez, vinte, trinta anos, para um programa de intercâmbio, para um mestrado, para um estágio, para um emprego, alguém perguntará às crianças expostas de agora em programas de televisão, ou naqueles congeladores de imagens a que chamam redes sociais: «Então você era assim aos dez anos? E agora, já se recomenda?» É, de certeza, isto que os pais, ou responsáveis pela educação da criança querem? Lembrar-se-ão da memória gigantesca de Funes? É que Funes, lembra-se.]