13.2.18

Memórias seletivas

A imagem que com mais frequência me ocorre do concerto é a da dama octogenária altíssima, com o chapéu, a blusa e os sapatos em perfeita combinação de um cinzento no limiar do desmaio. Não tenho forma de contabilizar o tempo até se aperfeiçoar tal arte de conjugação cromática, que não domino. Uma vida, talvez. Por um processo de seleção mental que não entendo, recordo mais a figura dela do que as esforçadas melodias de Borodin, confesso. Em contrapartida, talvez ela tenha notado e lembre, por sua vez, todo o engenho que tive a combinar um casaco, umas calças, um laço e uns sapatos no preto mais indistinto que descortinei no roupeiro. Se assim for, é de lamentar. Até Borodin merece ouvintes com memórias menos seletivas, há que admitir.