9.4.18
A brisa que chega agora
Eduardo desculpa-se de não tomar café comigo de manhã, deixa uma promessa: «Tomamos depois de almoço.» Saio, atravesso a rua, viro a esquina, outra esquina, entro, não peço e dão-mo, sento-me na esplanada, de costas para a porta, de olhar para os vultos que se esfumam, sem nome, nos passeios. Oculto por detrás da chávena, vejo passar Eduardo e, ao seu lado, Margarida. Há outro café nesta rua, do lado ímpar, três números abaixo. Sempre cavalheiro, Eduardo cede o passo a Margarida; levanta o braço, que diz: «Depois de ti.» Antes dele, ela. O braço direito levantado encaminha-lhe o ombro para a porta, num arco dançado, num abraço impercetível. A mão esquerda dela perde-se, esquecida por um instante na dele, o tempo apenas de um piscar de pálpebras. Os gestos desfazem-se, graciosos, depois dela, ele. Não os vejo já, mas a brisa que chega agora, ainda consegue entrelaçar o perfume dos dois.