15.4.18

A livraria toda

«Então vamos levar a livraria toda?» — pergunta a guia da loja enquanto aponta à cliente cada uma das bancas onde se empilham os livros com etiquetas de promoção. Procura descontos, não livros, a leitora, e quando a vejo sair, minutos depois, não leva nem uns nem outros. Escolher livros por subtração de preço é o mesmo que subtrair valor ao tempo, ou seja, à vida. Encontro um dos dois livros que procuro, graças à mesma guia, que me conduz pelo labirinto das estantes até um autor que desconhece, e cujo nome soletro, porque o sistema só funciona com exatidões. As exatidões são as âncoras que fundeiam as inseguranças. Não estava em promoção, o livro que comprei, e em que em cada página encontro a teia da ambiguidade. Comprar um livro é comprar uma esperança, que é sempre inexata. Comprar muitos, a eito, é levar o vazio. Entre levar o vazio e as mãos vazias, ela levava as mãos vazias. No lugar dela, eu teria feito o mesmo.